sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Em coma para a mulher

O homem estava no CTI há quase um mês. Fora vítima de uma obstrução intestinal com perfuração e septicemia. A insuficiência respiratória persistia, embora os parâmetros começassem a melhorar. Até os sedativos estavam sendo removidos gradativamente, e ele de fato acordara.
            Mesmo com o tubo na goela fazia gestos, piscava os olhos, movia as mãos, respondendo ao que os médicos e enfermeiras perguntavam. A família foi comunicada de sua progressiva melhora. Assim, queriam vê-lo, acariciá-lo, dizer-lhe algumas palavras. Contemplar-lhe os olhos abertos e expressivos era sinal de indubitável melhora e retorno da consciência.
            Um dia vieram dois irmãos. Falaram com ele e, ainda que não pudesse verbalizar por estar com o tubo na traquéia, saíram satisfeitos por terem conseguido se comunicar. Ao dia seguinte vieram a filha e o genro. Os olhos vivos e abertos a lhes encarar os deixou muito tranqüilos quanto à sua recuperação quase completa. Dias depois vieram seus dois filhos e alguns sobrinhos. Todos estavam maravilhados. Os médicos, do alto de sua pompa deífica e em seu jargão de altar inatingível, só confirmavam, para aqueles da família que ainda tinham alguma dúvida – “seu” Costa iria se recuperar completamente em breve.
            Dali a poucos dias veio-lhe visitar a mulher. As boas novas levaram-na animada ao CTI. Esperava ver o marido lúcido, como todos diziam. Nos últimos dias a apreensão e o medo de perdê-lo desanuviaram seu coração. Anelava vê-lo restabelecido e de volta ao lar. Alguém da enfermagem avisou ao homem: -“Sua senhora veio visitá-lo!”
            Adentrou o CTI e pôs-se à beira do leito. O marido jazia de olhos fechados e ainda inerte. A ela não parecia ter havido melhora alguma. Aproximou-se mais. Passou-lhe a mão no rosto, na fronte, nos poucos cabelos. Massageava-lhe o braço e lhe chamava pelo nome: -“Costa, Costa, sou eu, meu filho!” Ele aparentemente seguia em seu coma. Devia ter piorado, pensou. Insistia em chamá-lo, mas ele não esboçava nenhum sinal de que acordaria.
            Ela foi até o médico, que estava a olhar alguns prontuários no posto de enfermagem do CTI. Disse-lhe: -“Doutor, todos me disseram que meu marido teria acordado, que abria os olhos e até sorria, mas falo, falo com ele e ele não responde, continua em coma.”
O médico olhou para ela meio incrédulo; afinal tinha examinado o homem poucos minutos antes de ela chegar. Ergueu-se e veio examiná-lo novamente. Chamava-lhe pelo nome, beliscava-lhe de leve o mamilo, apertava-lhe a pele pré-esternal e nada. O homem permanecia imóvel e não acordava. Dir-se-ia ter entrado novamente em estado de coma. Toda a medicação sedativa fora suspensa. Só havia uma explicação: uma piora significativa em questão de minutos. Ele pediu à esposa que se retirasse para que pudesse avaliar melhor a situação. Ela saiu em completo estado de desânimo e pessimismo.
O profissional veio consultar as enfermeiras, avisar-lhes que “seu” Costa entrara novamente em coma. Uma delas protestou: o homem estava de olhos abertos agorinha mesmo. Correram todos ao leito de “seu” Costa. Ele estava lá, de olhos bem abertos, encarando-os com vivacidade. Bel, a enfermeira que mais conversava com ele, repreendeu-o: -“Mas, ‘seu’ Costa, faça isso com sua mulher, não! A pobrezinha saiu triste da vida pensando que o senhor não tem jeito!” E o homem sorria o sorriso dos entubados, silencioso aos ouvidos e retumbante em gestos, cheio de vida e bom prognóstico.
Essas coisas também pertencem ao casamento.