segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Uma vez gostosa, nem sempre gostosa

Suponhamos uma gostosa. Sim, uma mulher bem gostosa. Ela está ali no calçadão, na Beira-Mar, desfilando em seu traje esportivo mais sensual e revelador que se possa imaginar. Exibe seus seios fartos e rijos num deboche humilhante; quase não balouçam às suas largas passadas. A barriga é durinha. As coxas grossas se prolongam em pernas roliças, numa proporcionalidade fibonáccica. Terá o quê?, vinte e poucos anos, se tanto. Talvez tenha mais, não importa. Importa que aparente vinte e poucos.
            Eis, então, que lhe aparece o Amorim, o cinqüentão. Estupefato e babando a baba elástica e bovina rodriguiana, aproxima-se. Quer abordá-la. Falta-lhe a derradeira vergonha que já deveria ser própria de um cinqüentão. Mas, não; não ao Amorim. Aproxima-se quando ela pára um pouco para ajeitar o cabelo, resfolegar. Diz-lhe qualquer coisa pouco original. Ela percebe a cantada e fuzila: -“Sai pra lá, tio!”
            Perceberam? “Tio”! Talvez também tenha dito algo como: -“ Não se enxerga, não?!” Não se ouviu esta última frase dado o impacto da primeira. “Tio”!
            Passados alguns dias o encontro lá, no mesmo calçadão. Sentamos a conversar e limpar a vista. Cinqüentões podem limpar a vista, pois não? Ninguém é de ferro. A bem da verdade, cinqüentões saudáveis pensam e desejam como garotos de vinte. Estaria aí a defesa do Amorim. E o que acontece?
Eis que aparece a gostosa, a mesma que o Amorim flertara. Ele me puxa; me encosta a boca ao ouvido e se queixa, indignado: -“Essa aí fez assim, assim, assim...comigo.” Olho a moça da cabeça aos sapatos. Já descrevi a gostosa. Voltem ao início e releiam. Eu mesmo já a tinha visto outras vezes. Qualquer um que a visse dela se lembraria. Olho cada detalhe. Penso: -“Vai ser gostosa assim lá em casa!”
Viro-me pro Amorim. Desabafo: -“Meu chapa, uma mulher como essa um homem como você não deve abordar jamais!” Continuei: -“Não tens o direito!” Ele queixava-se de sua grosseria do outro dia. Tentei fazê-lo ver que as novas, as de vinte e poucos, abordam os cinqüentões somente quando querem. Não é sua primeira preferência, via de regra. Em outras palavras, um cinqüentão não flerta uma de vinte e poucos, a não ser que dela parta a iniciativa.
Hoje encontro o... Ocorreu-me agorinha que não lhe sei o nome. Ele tem sessenta e sete anos e é assíduo freqüentador do calçadão. Corre quase que diariamente. Não o conhecia até outro dia, quando ele chegou ao final do percurso, olhando para o relógio a conferir o tempo que gastara na corrida. Ele ia passando por mim e lhe perguntei: -“Quanto?” Ele respondeu, cheio de si: -“Seis quilômetros em trinta e três minutos!” E ficamos a conversar. Desde então somos amigos. Hoje convalescia de um leve resfriado adquirido no fim de semana. Relatava-me uma peripécia sexual com certa donzela, razão da indisposição temporária. Dizia: -“Dormi nu com o condicionador de ar em cima de mim!”
Vejam quanta diferença. Podemos abordar as pessoas despretensiosamente ou com segundas intenções. O diabo é que a gostosa sempre terá a certeza de que está sendo alvo de cobiçosos marmanjos à caça. Amorim tem razão numa coisa: ela bem poderia ter feito um amigo. Afinal, Amorim é um adorável e amorável cinqüentão. Se não sabe ser gostosa, esquece que dias mais negros lhe virão a propósito de sua gostosura...  
E consolei o amigo: -“O tempo será a tua vingança!” Uma vez gostosa, nem sempre gostosa...