quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O lugar mais seguro do mundo


Esse assunto das redes sociais já está a me tirar do sério. Vejam o que escrevi outro dia – quando foi mesmo? – a propósito das indevidas exposições nas redes sociais: Quem quiser postar sua senha bancária nas redes sociais que o faça, sem esquecer de enviar também o número da conta e código da agência. Muitos ficarão gratos. Há um monte de gente precisando de dinheiro. Deixem-me relatar o que estava a ocorrer ao mesmo tempo em que escrevia estas despretensiosas notas.
            Fui ao caixa eletrônico para fazer pagamentos. Desisti, há algum tempo, de usar  a rede mundial para fazer operações bancárias por receio dos assaltos virtuais, tão alardeados e comuns. Com tantas dessas máquinas por aí, nada custa, quando se está na rua, passar numa delas e pôr em dia os débitos inevitáveis. Julgava mais seguro utilizá-las, principalmente as que estão dentro das próprias agências dos bancos.
Estou diante da máquina. Puxo o saldo. Resultado: saldo negativo. Não direi quanto esperava ver de saldo, mas digamos que eu teria de gastar muito para o saldo ficar negativo. Puxo o extrato impresso e, num relance, destrincho o cenário: todo o dinheiro havia sido sacado de minha conta através de algum ilícito. Vejam vocês. Eu trabalhando para que se fizesse novo depósito em minha conta e o sujeito, um bandido, talvez com um esforço até menor, gastando o meu dinheiro por aí, de flozô, certamente pensando: -“Peguei um otário!”
Olha, senhor bandido, deixe-me lhe dizer uma coisa. Devo ser mesmo um otário. Nem mesmo foi preciso quebrar o sigilo de minha senha, confessando-a nas redes sociais. O senhor, com essa competência digna de elogio – estou a enaltecer a habilidade, não a moral do ato –, me passou a perna bem direitinho. Com efeito, não foi a mim que o senhor enganou – o senhor ludibriou todo um sistema. Eu fui a vítima da vez, mas todo o aparato ficou de quatro por sua ação bem sucedida.
Onde ficam, agora, meus argumentos sobre o perigo das redes? Eu assumo: - caíram por terra. Se não se consegue encobrir um troço que só existe na memória de alguém – a senha bancária –, para que se poupar aos exibicionismos das redes sociais? Além de ter sido surrupiado, tive todas as minhas afirmações estrondosamente refutadas. 
Dirá algum engraçadinho que o que escrevi ao início serviu de estímulo e desafio a algum praticante contumaz do artigo 171. Posso garantir: - o texto era inédito, ninguém o havia lido. É mais um reforço à hipótese da discrição inútil. Devo voltar atrás e desdizer tudo o de antes? Quantos textos terei de rever, reescrever, lançar ao lixo? Deixo essa conta para depois, daqui a pouco. Importa-me agora ruminar minha cretinice.
Os amigos que vivem em seus domicílios virtuais das redes sociais irão, tão logo tomem conhecimento deste fato lamentável, rir-se de mim a não mais poder. Não o farão por mal. Para eles será uma pilhéria, mais uma, pela minha insistência em argumentos contra o que não é bom nas redes. A conclusão a que chegarão não poderia ser mais óbvia: não há perigo nenhum em se escancarar a vida pessoal. E vivas à nudez coletiva!
É bem verdade que fui alvo de um crime e – pior! – tornei-me dele o suspeito número 1. Disse-me um dos funcionários do banco, quando lá fui formalizar os procedimentos de praxe, que a instituição parte do princípio de que todas aquelas “compras” foram realizadas... por mim! Por isso sobrava para mim o ônus de provar que não fora eu o autor do assalto. Em outras palavras, eu estaria simulando um roubo a mim mesmo para que o banco me repusesse o dinheiro “roubado”, e assim acabaria eu por roubar o banco. Notem que eu estou no centro de tudo. O ladravaz desse caso é um ser virtual; até que se o prove, nem sequer respira. Não sei se me entendem.
Assim, eu, que não me exponho nas redes e guardo senhas somente em meu córtex, tive meu dinheiro subtraído de minha conta, enquanto as mansões virtuais de meus amigos estão de portas escancaradas para o universo e nada de ruim lhes sucede. Já começo a suspeitar que as redes sejam o lugar mais seguro do mundo.