terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O idiota sou eu

                 Formado 1 ano após o previsto, por razões que agora têm menos importância, fiz recentemente 25 anos. Durante esse tempo de tudo vi. Até aí nada de novo. Com essa quantidade de tempo vendo doentes e doenças, se vê de tudo mesmo. Vi, e ainda vejo, tudo o de ruim na saúde do país. Nada mudou nesse tempo todo ou, melhor, mudou – mudou para pior. Era ainda a ditadura quando ao início da faculdade. Abundavam os professores e estudantes de "esquerda". Lia-se Trotsky, Marx, venerava-se Stalin. Supostas mentes brilhantes apregoavam a ubiqüidade próxima do comunismo. Caiu a ditadura, entraram governos, saíram governos; elaborou-se e promulgou-se uma nova e liberal constituição. Persistiu a frustração comunista, dada a permanência da pobreza extrema lado a lado a nichos de riqueza e prosperidade. A herança dos tempos difíceis ainda não se manifestara. Afinal, a ditadura de "direita" passara o bastão para a direita liberal. Assumia o poder representante maior do alinhamento da "direita" com os ex-ditadores. A economia pareceu equilibrar, mas o monstro inflacionário rosnava à medida que crescia. Não se passou um lapso maior de tempo e já se manifestava no cerne do poder central a sarna da corrupção e do pouco caso com a coisa pública. Um presidente foi afastado e seu "tesoureiro" assassinado. A economia ainda vacilava. A inflação corroía o dinheiro do pobre, que não possuía conta bancária remunerada. Os ditadores haviam sonhado, em continuidade com o sonho de outro presidente, um Brasil de avenidas largas, viadutos gigantescos, pontes quilométricas, monumentos nababescos, movido a energia nuclear. Nascera, assim, o "milagre" brasileiro. Os empréstimos que contraíram levaram o país a endividamento impagável, dizia-se. Esqueceram-se que o endividamento é positivo quando os créditos são utilizados para gerar e fomentar a riqueza através de investimento em educação da melhor qualidade. Educação gera empregos, desenvolvimento tecnológico, pesquisa de ponta, pujança econômica sustentável e duradoura. Pontes e viadutos somente não geram os mesmos efeitos, a não ser em discursos de campanha eleitoral para um povo crédulo e desconhecedor histórico da história de outros povos. Veio, então, o plano econômico que, pareceu, ia dar certo. Sumiu a inflação e iniciaram-se programas de ajuda social. Contudo, persistia o ranço de todo um povo contra a herança dos tempos difíceis. Não parecia a esse povo que as melhorias advindas do controle inflacionário fossem o bastante para manter a velha "direita" no poder, e alçaram a "esquerda" a ele. Com ela, pensava o povo, muito mais havia de melhorar, principalmente a maneira de se fazer política. A corrupção e a roubalheira teriam, por certo, um fim. Não demorou muito e se percebeu que não era bem assim. A "esquerda" não tinha um projeto de país, mas um projeto de poder. Em função dele tudo o de pior foi, e vem sendo, levado a cabo. O futuro é incerto. Ou seria o contrário? O futuro é bem certo, dentro do que pior se possa ter em perspectiva do futuro. 
                                                                                 ***
                Muito se tem comemorado sobre a proeza que alcançou o estado do Ceará. É, ao que consta em inúmeras manchetes de jornal, o estado da federação campeão em realização de transplantes de órgãos. Uma fortuna é gasta no programa dos transplantes. Se há muitos transplantes, há muitos doadores e há muita gente necessitando de transplante. A coordenação das equipes que fazem transplantes assegura: ainda são necessários muitos doadores para atender a demanda. Ao que tudo indica a demanda é altíssima. Muita gente precisa de rim, córneas, coração, fígado, pulmão, pâncreas. É uma história engraçada, não fosse antes trágica e denunciadora de nossa incompetência e desumanidade. É também o exemplo atual mais gritante de como o brasileiro tem uma visão míope de suas tragédias cotidianas. Muitas mentes brilhantes e geniais se enfileiram às massas cegas e entorpecidas. A imprensa, que de santa nada tem, é quem todo dia nos dá as dicas de nossas maiores crueldades e de nossa insânia coletiva. Ela felizmente parece ainda não ter percebido que está a divulgar a história mais absurda e torpe de um povo, ainda que verídica.
           Em momento de ócio extremo abro o jornal de hoje. Diz a manchete: "Diabéticos sofrem sem políticas públicas" (Diário do Nordeste, primeiro caderno, pág.4, 14.02.2012). A matéria relata o padecimento de crianças e adolescentes diabéticos com a falta de medicamentos e outros insumos necessários ao controle da doença com vistas à prevenção de suas complicações. O diabetes descontrolado é causa de inúmeras complicações, mormente as devidas à aceleração do processo de aterosclerose. Doentes diabéticos mal controlados evoluem para nefropatia diabética e perda renal; têm infartos "silenciosos" e evoluem para cardiopatia isquêmica e insuficiência cardíaca grave e terminal. Perdem seus rins e seu coração por falta de controle. Quando se diz falta de controle entenda-se falta de medicamentos, falta de uma política preventiva de saúde séria e eficaz.
           A reportagem fala do drama de crianças e adolescentes, mas seguramente o mesmo ocorre com os diabéticos de outras faixas etárias que dependem do governo para se tratar. O mesmo se pode dizer dos hipertensos. Diabetes e hipertensão são fatores de risco que merecem controle constante e ininterrupto. Também faltam medicamentos para controle da pressão arterial nos hipertensos, que acabam por serem vítimas das complicações da hipertensão não controlada. Perdem seus corações, seus rins, sofrem ataques isquêmicos e derrames, ficam inválidos sobre um leito de hospital ou na miséria de seus lares, necessitando de alguém que lhes troque as fraldas e que lhes dêem de comer. Morrem repletos de escaras e feridas podres, reflexo dos cuidados insuficientes e inadequados que seus ignorantes e mal educados familiares lhes prestam.
          Nas televisões estão sempre a nos lembrar que devemos ser doadores de órgãos para que um dia possamos salvar uma vida.
          Nas ruas centenas e, talvez, milhares de jovens são assassinados na violência urbana de nossas cidades inseguras onde o tráfico e uso de drogas ilícitas grassa impunemente. Eles compõem, segundo dados da própria coordenação das equipes de transplantes, a maioria absoluta dos doadores de órgãos aos doentes que são fabricados no nosso podre e assassino sistema de saúde. O álcool, uma droga lícita, contribui em grande parte com a violência, notadamente a de nosso trânsito caótico, homicida e gerador de inválidos. Nem nossa mais refinada "elite" se digna a deixar o carro em casa ao sair para uns drinques. Matam e se livram das penas de um sistema legal conivente e hipócrita. Eis onde estão e são gerados nossos doadores.
          Ao fim de toda essa lembrança e certamente  insuficiente análise, o patético é ler o que um secretário de estado vem a público dizer na reportagem: o atraso é sempre na licitação ou no "repasse" de recursos. As licitações no Brasil... Bem, elas nunca impediram a malversação, ou o superfaturamento, ou o favorecimento  ilícito, tudo aquilo que justamente vem justificar sua existência. Licitação no Brasil é outra de nossas grandes e institucionalizadas hipocrisias. Mas elas com freqüência são a causa da descontinuidade do controle das doenças crônicas de nosso sofrido e miserável povo. Rouba-se e os doentes ainda pagam por isso.
          O repasse dos recursos vem demonstrar nossa Brasília central, nossa grande rainha, nossa "viúva", a quem todos estendem a mão como pedintes esfomeados, a se deixar cooptar por seus quereres e caprichos ardilosos e delinqüentes. Uma montanha de dinheiro em seus cofres disputada diuturnamente por políticos e empresas inescrupulosos que demonstram o furor de nossa republiqueta em sobreviver a todas as tentativas de a engrandecer.
         Para pôr fim a esse tão prolongado discurso, que já entedia a mim mesmo e ao pobre açodado leitor, as outras palavras do secretário que só serviram a dizer o óbvio quanto à perene falta de tudo em nosso falido sistema de saúde: "o problema é rever as pactuações entre as instâncias". Governo federal, estados e municípios devem se entender. Mas como? se nossa "viúva" teima em não abrir mão da montanha de recursos que arrecada e guarda em suas pútridas entranhas? Disse mais o óbvio secretário em relação ao problema dos jovens diabéticos, e confessando a dificuldade em gerir o sistema: a demanda é elevada. Em outras palavras, vai ter diabético pobre assim no raio que os parta! Ser diabético não se resolve com política ou com eleições. É uma questão genética e/ou epidemiológica. Talvez ser pobre, sim, tenha raízes em nossa politicalha imutável. Talvez modernizando o país com idéias novas, não inéditas, fosse já um começo. 
          Viver uma vida inteira e ver tudo andar pra trás não é algo que se deseje. O pior é se saber parte desse jurássico sistema e ver nele continuar a vicejar os idiotas. Ou, melhor –onde vicejam os espertos. O idiota sou eu.