domingo, 19 de fevereiro de 2012

Sem lucubrações

          Foi com uma enorme satisfação que assisti ao professor Pasquale Cipro Neto dizer que o acordo ortográfico da língua portuguesa é, na verdade, um desacordo. Disse também, para meu deleite, que a retirada de alguns acentos, como o agudo de "pára", é um verdadeiro absurdo; que somente o Brasil, dentre os oito países da comunidade de língua portuguesa, iniciou a obedecer as novas regras já ao início; que Portugal estendeu seu período de adaptação a elas até 31 de dezembro de 2016, enquanto no Brasil esse período vai até o final  do corrente; que elas vieram para satisfazer a interesses econômicos de grupos menores; que o acordo seria absolutamente desnecessário; e que por tudo isso o acordo acabou por se mostrar um desacordo. Exemplificando, o professor afirmou que a língua inglesa não tem uma grafia unificada entre os países que a utilizam e nem por isso se deixa de a entender entre eles. E asseverou  que o texto que cria e estabelece as normas de nosso (des)acordo é por demais ruim e confuso.
          Perguntado sobre se ele próprio já estaria escrevendo sob as novas regras declarou que em suas colunas de jornais sim, mas que na vida pessoal não. Ainda escreve pela antiga regra para amigos em cartas e e-mails e vai continuar a utilizá-la até quando lhe for permitido, ou seja, até 31 de dezembro de 2012, quando acaba no Brasil o período de adaptação. E fuzilou, sem medo de demonstrar sua repulsa às regras do (des)acordo: -"Sou bígrafo! E o serei até ondei me for possível!"
          Disse mais. Sobre o papel da subversão da escrita como forma de a modificar, declarou que a subversão só deve ser utilizada por quem possui profundo conhecimento da língua, como o fez o grande João Guimarães Rosa. Ele a subverteu na arte, enquanto no prefácio de seus livros e fora de seus romances demonstrava ser um exímio conhecedor da língua e da norma culta. 
          Bom mesmo era que o professor Pasquale se tornasse um cacógrafo definitivo e irremediável. Teríamos, assim, a primeira revolta ou revolução em prol da lucidez, do bom senso e da bela escrita posto que, é bastante provável, muitos desenrolassem suas bandeiras a segui-lo. Eu seria um deles. De reforma em reforma – quem sabe não virão outras? – em breve teremos vários dialetos. 
                                                             ***
          Devem ter visto nos cômicos jornais que, ao que tudo indica, o mentiroso é o senador José Pimentel. É de morrer de rir!
          A Petrobras emitiu uma nota afirmando que os recursos da refinaria virão dela própria. Portanto, o estado do Ceará não pode devolver o que não recebeu. A empresa declarou ainda: o governo do estado está em dia com a regularização do projeto da refinaria e tem feito tudo o necessário para viabilizá-la. 
          Já a Caixa Econômica Federal emitiu uma nota onde afirma, em relação aos recursos do programa "Minha Casa, Minha Vida", que o estado cumpriu todas as exigências para sua liberação e que nenhum dinheiro foi devolvido.
          Parece que o senador falou do que não sabia, ou estava a falar de outra coisa que ao momento nos parece obscura, ou estava querendo mesmo apagar o brilho de nossa Antares, ou pretendia implodir a aliança entre o seu partido e o do governador com vistas a ter seu nome como candidato do PT às eleições para a prefeitura de Fortaleza. Como disse um articulista de um jornal, logo o Pimentel, conhecido por seu temperamento apaziguador e aglutinador. 
          Já sabíamos que havia um mentiroso entre um senador e um governador. Isso já era engraçado em si. Agora temos a certeza (?) de que o mentiroso é o senador. É menos engraçado. Seria mais se o mentiroso fosse o governador, que seria obrigado a descer de sua constelação e vir a público dar explicações.            
          A mentira vinda de um petista não mais está nos levando ao riso nem às lágrimas, posto que se tenha banalizado em sua alta freqüência. Além do mais, a mentira, esta mentira, seria verossímil uma vez que há dados que poderiam confirmar o que ela afirmava, se fosse verdade. É diferente de o sujeito ser pego no aeroporto com a cueca cheia de dólares e dizer que não sabia que eles ali estavam. Onde estaria a prova da veracidade do que ele dizia? Seria necessário aparecer alguém para assumir ter-lhe enchido a cueca com uma pequena montanha de dinheiro e um médico a lhe atestar a morféia. 
                                                                  ***
          O que eu disse sobre a hilaridade dos jornais é um equívoco de minha parte. Não são eles os que promovem o humor – são os políticos e, por extensão, o bicho homem. Vejam, por exemplo, a história dessa senhora que teria desaparecido no Parque Ecológico do rio Cocó, aonde fora para uma caminhada matinal. Especulava-se sobre tudo de mal que pudesse lhe ter acontecido. Já se via a manchete a dar conta do encontro de seu corpo em cova rasa, inumada após sevícias e tortura, ou a chegada de um pedido de resgate por parte de seus seqüestradores, ou qualquer outra desgraça. Pudera. A polícia já a procurava utilizando-se de cães farejadores, e nossa capital não inspira confiança em matéria de segurança. A se confirmar tudo isso, não teríamos do quer rir. Seria mais uma de nossas tragédias a se reeditar. 
          Mas eis que apareceu a moça. Saiu de casa por "motivos pessoais". (É casada e tem duas filhas.) Nem chegou a estar no Parque na manhã em que supostamente para lá se dirigiu. Foi direto para a casa de amigos. Estaria, como ela mesma confessou após seu aliviante retorno à vida, tendo "problemas em casa". Ora, a jovem senhora transformou seu drama pessoal e privado em uma pública, refinada e moderníssima comédia. Ela permanece sendo vítima, mas não da violência urbana. Não parece também ser vítima de violência doméstica física. Entretanto, ficamos a pensar se não é vítima das dificuldades da vida matrimonial. Seria essa outra forma de violência? Se for, toda a família há de ser vítima, e não somente ela. 
          Não lucubremos.