terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Traduzindo um Brasileiro

          Raramente intitulo um texto antes de seu arremate. Este, não. Este é diferente. Já lhe sabia a epígrafe antes mesmo de lhe deitar a primeira letra. Mais uma vez deram o mote os jornais ou, melhor, uma coluna de jornal e seu autor. A razão é simples – seu estilo é muito peculiar e, dentro da característica da hilaridade de nossas publicações, engraçado. O homem é o jurássico dono de uma coluna social, onde publica da vida da high society. É autor de livros dos quais, confesso, nunca nada li. Outro dia o vi à televisão afirmar que não liga a mínima para o que dele possam dizer ou criticar. 
          O colunista escreveu, a título de exemplo de sua singular maneira de escrever, o seguinte sobre certa senhora: "sacerdotisa da Benquerença, Machado de Crateús, que todavia não ganhou com algodão, nos quarenta". Se alguém acha que a construção do nobre articulista é indecifrável, tentemos ajudar esse alguém. Eu disse "tentemos", porque não me parece tarefa fácil. 
          O que ele disse foi o seguinte, trocando em miúdos. Se o querer bem ao ser humano fosse uma religião, essa senhora seria uma sacerdotisa dessa religião por tanto amor que nutre pelos seres humanos. Além disso, ascende pela família Machado da cidade de Crateús, onde, nos anos quarenta, se enriquecia fácil com o cultivo do algodão. Os Machado, contudo, continuaram lisos, e a santa senhora também. Se for possível outra interpretação, aceito sugestões. 
          E o que dizer da seguinte?, falando de uma misteriosa senhora: "elegante talhomônima, Phebo de outros tempos". Como ele havia se referido a uma outra senhora antes desta, concluí que esta deve ser tal qual e homônima daquela. Difícil é relacionar uma fêmea ao deus mitológico grego Apolo, a quem Phebo, que significa "brilhante", serve de epíteto. Outra possibilidade é a de que ele esteja dizendo que esta senhora já muito brilhou em outros tempos e que hoje mais se assemelha a uma anã branca, estrela fria e opaca. A palavra talhomônima  não está dicionarizada. Eu não me surpreenderia que a mesma fosse um neologismo criado pelo cultíssimo e criativo colunista. 
          De certo senhor diz o jornalista o seguinte: "busto do Pai Conde dá boas-vindas a quem vem pela carretera, demandando Icaraí e praias subseqüentes". (Essa tá de lascar!) Quis ele dizer que o pai do senhor a quem se referia, já falecido e que se chamaria Conde, foi homenageado com uma estátua que está localizada à pista que dá acesso à praia do Icaraí e outras depois dela, como a dar boas-vindas aos viajantes. Observem que o escritor usou um termo da língua espanhola, carretera (=auto-estrada, rodovia), sem o grifar ou pô-lo entre aspas. 
          Que terá ele querido dizer quando disse de uma outra fulana:"participante da sessão de escovas, uma das Vandinhas dos sábados."? Estou de queixo caído tentando atinar. Entendo que, talvez, a referida fulana costume, aos sábados, fazer escovas nos cabelos, sendo apreciadora do tipo que usa longas trancinhas laterais, com ou sem franjas frontais, como a sádica e sombria Vandinha Addams. Ou que ela seja dada a peregrinações aos sábados, já que "Vandinha" significa "peregrina". 
          Sobre outro senhor disse: "seu pai Moacir atingiu 100 sendo Matusalém da Barão de Studart". Quis ele dizer que o pai do referido chegou aos 100 anos, e o comparou ao longevo avô de Noé. Como morava à avenida Barão de Studart... (Essa foi moleza!)
          Há ainda uma penca de construções interessantíssimas vindas da pena do antigo colunista. Além disso, há mérito – em poucas palavras diz tudo. No exíguo espaço que lhe dão no noticioso diz muito mais do que seria possível dizer um simples mortal. Pena que, por vezes, para nós que não orbitamos sua plêiade fique difícil entender o que ele quer dizer. Ele, com efeito, não deve ser culpado de nossa ignorância.