quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sobre pocilgas e aviltamento pessoal

          Todos sabem que sou um homem de frases. Adoro a frase lapidar, a frase que ouço ao vivo, a frase candidata ao epitáfio. Não me confundam com o sujeito que anda à cata delas para impressionar os outros. As frases ditas por antepassados famosos de várias estirpes já se conhecem, e ainda impressionam por sua força e conteúdo, mas foram ditas quando eu lá não estava. Estar presente ao momento da emissão da frase escultural é, para mim, desses orgasmos indizíveis e torporosos. 
          Pois ontem ouvi de meu amigo Péricles Campelo a seguinte frase: "Felicidade pra mim é você acordar todo dia e pensar 'Pôxa, hoje eu vou fazer o que eu gosto!'" (Silêncio respeitoso) 
              (Segue-se  novo silêncio repleto de reflexão)
              (Segue-se o barulhar dos argumentativos no intuito de calar suas consciências)
          A mim me feriu no coração. Ao contrário dos diletantes contumazes, que usam da vazia dialética apenas para discordar, assumo: fugiu-me a felicidade, segundo a definição de meu Péricles. 
          O irônico é que estou para, mais uma vez, me expor as entranhas. Tanto critico as pessoas que na rede social se expõem em demasia, e tanto me exponho em minhas impudicas confissões. Mas há diferenças gritantes entre as minhas e as suas razões. Elas se expõem movidas pela vaidade; eu me exponho movido pelo angústia. 
          Diz o meu querido Glauco Kleming que o homem não deve viver angustiado. Segundo ele, o sujeito deve tudo assumir. Se gosta de comer rabada, deve comer rabada; se aprecia ir à praia às segundas quando todos trabalham, deve ir à praia às segundas quando todos estão a trabalhar; e assim por diante o homem, para não se tornar um angustiado ambulante, deve assumir suas idiossincrasias e seus quereres, respeitados os limites impostos pela existência dos outros seres humanos. Atentem bem que esta é a opinião de meu amigo. Em suma, ele verbalizou a seguinte idéia: deve-se exercitar o livre arbítrio. Presume ela que o sujeito que não escolhe nem leva a cabo o que escolheu, angustia-se. 
          Assim, para que se me interrompa a angústia que já me quer invadir, exponho o que me  leva a ela. Segundo o conceito de meu Péricles, acordo quase todo dia e penso: "Pôxa, hoje, mais uma vez, vou fazer o que não gosto." Imaginem o sujeito acordar já sabedor de sua angústia. Não sei se perceberam, mas sou vítima de duas angústias – tenho angústia de minha angústia. Em outras palavras, tenho ansiedade por sofrer. Cessado meu sofrimento, cessaria minha ansiedade. 
          O leitor a essas alturas anseia saber por que sofro, e lhe direi sem demoras. Sofro por trabalhar, em certo decadente hospital desta decadente cidade, como um médico à época do paleolítico inferior. Àquela época nem a medicina existia, Esculápio não era adorado, e Hipócrates não viera à luz. Dirão que exagero, que estou a endoidecer dada a angústia e o sofrer. Direi, entretanto, que estou em perfeito uso de minhas faculdades mentais. Direi mais – antes não estivesse, antes estivesse lunático. E ratifico: a comparação é verossímil. 
          A pior das angústias – trabalhar sozinho e sem recursos, humanos e tecnológicos, eis aí tudo. Em área da medicina em que se requer ambos para o bom resultado, não os ter gera no seio daquele que sonhou o melhor fazer por seus pacientes as maiores tristezas, frustrações e angústias que se possa imaginar. Fazer o menos é fazer o pior. 
          O sistema – "sistema" é o nome que se dá ao conjunto de todas as insuficiências e incompetências disponíveis – o sistema é podre. Eu ia dizendo que o sistema está podre, mas "estar" é um verbo que passa a idéia de transitoriedade. Como o sistema sempre esteve podre desde que me entendo por médico, diria que ele, de fato, "é" podre. Um sistema podre é como a pocilga do Feitosinha, em chácara próxima ao Iguape. 
          Outro dia fui à chácara de meu Feitosinha e levei comigo um passeio completo. Não seria um Armani, mas o corte era perfeito. Os sapatos eram os Scatamacchia mais belos que pude comprar. Ele estranhou quando lhe disse: -"Onde me troco?" Respondeu com outra pergunta: -"Vais pôr a sunga para a piscina?" Fui enfático: -"Quero entrar à pocilga de passeio completo!" A expressão de meu amigo mostrava toda a sua surpresa e paralisia mental, causadas pelo choque e incredulidade. Seguramente imaginou para mim um distúrbio mental gravíssimo em fase avançada. Quis tranquilizá-lo. Disse: -"Quero te mostrar uma coisa; uma imagem fala mais que um milhão de palavras." 
          Assim, 10 minutos depois saía eu do curral dos porcos com os sapatos e o terno típicos de quem saiu de um curral de porcos. Feitosinha me olhava ainda com aquela expressão de lamento e preocupação com minha saúde mental. Disse-lhe, puxando-o pela camisa: -"Não dá pra entrar na pocilga e não se sujar, meu chapa!" E saí a lhe relatar meus dissabores quanto às outras pocilgas, o sistema e o decadente hospital. 
          Tanto sofrimento ao acordar e saber que se vai fazer o que se não gosta levou-me a reavaliar. Ouvir a frase de meu Péricles foi ao mesmo tempo um choque e uma injeção de ânimo. Sempre é possível se limpar uma sujeira; se não a da pocilga, visto que os porcos serão sempre porcos, ao menos nossa própria. E, em limpando a própria e anelando alimentar o primevo idealismo, comprometer-se a jamais adentrar novamente qualquer pocilga. 
           Na estrada da vida é comum a tendência a se perder o rumo. Necessário é vigiar, para que se não surpreenda estar em outro caminho. A descoberta ou percepção de se encontrar em caminho diverso daquele inicialmente traçado só permite uma atitude – voltar ao caminho original ou seguir um terceiro rumo. O medo da morte e da fome são os instintos básicos de sobrevivência que nos impulsionam a aceitar tudo e tudo fazer que nos avilte. O aviltar-se não pode jamais vingar em definitivo – seria o animal vencendo o homem. Schopenhauer esqueceu esse detalhe.