terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Um homem descarrado


Tive hoje, ao ler a coluna do Airton Monte, a grata surpresa de descobri-lo um antiapologético das corridas de carros e dos próprios carros. Admito: estou com o Airton e não abro. Mesmo nos gloriosos tempos do Airton Sena era um pé no saco ver toda uma nação ao pé da televisão babando e ensurdecendo ao rugido daqueles motores estrepitosos. E como havia os aficionados!... Parecia que entendiam de motores, regras, estratégias, o diabo. De minha parte, detestava tudo aquilo.
            Direi apenas que difiro do Airton Monte por um simples detalhe – não detesto tanto assim os carros. Eles ainda me fascinam, ainda me dão vontade de amarrar-lhes um barbante à dianteira e sair a puxá-los como quando em criança. Entretanto, veio habitar em mim aos poucos, com o passar dos anos, a nítida certeza da não necessidade desses brinquedos na vida de alguém. Essa verdade é relativa, concordo, antes que me queiram servir o fígado à moda acebolada. É só contabilizar o tangível no que diz respeito ao carro em nosso meio para elucidar se ele é uma necessidade em cada caso.
            O carro é caríssimo! Tome-se um carro dito popular. Cerca de quarenta por cento de seu valor corresponde a impostos e taxas. Na Índia e na China esse valor é vinte por cento; na Argentina e Estados Unidos, vinte e quatro por cento; na Europa trinta por cento. Some-se a manutenção, seguro, consertos que a manutenção não preveniu, multas, depreciação, etc., eis aí quanto custa ter o carro. Se comprá-lo financiado, computem-se os juros do banco. Ia esquecendo as taxas de licenciamento anuais, dentre os quais os impostos para ter o carro – lembrem-se do Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores.
            Aos comunistas – podem acreditar, ainda existem tais seres! – somemos mais valor, ou melhor, mais custo ao carro. Bem se vê que um carro pode ganhar uma nova e exuberante dimensão.
Existem carros e carros. O carro dá status, aí está o que queria dizer. Não falo de um Uno Mille, que esse é sinal de tudo menos de status. Falo dos carrões, dos que tudo têm em acessórios, cheiros, conforto, potência, design, e, como não poderia deixar de ser, preço. Carrões têm acima de tudo preço. Têm mais custo, são mais caros ainda. São verdadeiras residências móveis. Alguns, de fato, custam mais que um apartamento. Esses não servem apenas de meio de transporte – são verdadeiros símbolos de sucesso, virilidade, poder, abastança, opulência. Preenchem o vazio da vida. E, se a vida anda vazia, por que não preenchê-la com um desses lindíssimos modelos do mercado? Tudo isso é o que há de intangível acerca desse tão apreciado objeto de nosso dia-a-dia. Não há dinheiro que pague. Valem, portanto, todos aqueles custos elencados a princípio.
Ao Airton Monte aviso que radicalizei. Há quase seis anos vivo sem carro. Descompensei, como se diz no jargão médico. O que supostamente perdi em conforto ganhei em liberdade, ao contrário do que muitos pensam. E tenho contribuído com a natureza, devo lembrar. Devo assentir que caiu deveras o meu status, até que chegue o dia em que andar de táxi volte a ter o seu it, como noutros tempos. Por outro lado, passei a parecer o que não sou, quando outrora também parecia o que não era, resguardadas as abissais diferenças de uma e outra época. Afinal, posso alugar vez ou outra um carrão, caso me acuda um dia a necessidade imperiosa de uma máscara.   
O diabo é ter de aceitar as caronas inevitáveis que me dão os amigos quando saímos às farras. Suponho que não seja por dó de mim, mas porque adoram a minha humilde e resignada companhia.

Fernando Cavalcanti, 11.06.2010