terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Mensagem de Natal?

            Escrever sobre o fim do ano é batidíssimo; sobre o início do outro, idem; escrever sobre o Natal nem se fala. Nessa época o que predomina, o que é a tônica, o que prevalece são os clichês pra lá de manjados. Assim, como dizer alguma coisa minimamente diferente? Deve-se tentar? E para quê? Com que intuito?
A razão mais óbvia é a predisposição das pessoas nessa época do ano. Elas parecem mais receptivas, mais reflexivas, mais voltadas para uma auto-avaliação. Estão em busca de algo novo. Estão de saco cheio e entediadas da vida. Querem acreditar que é possível, sim, viver outra vida ou, dito de outra forma, pensam ser possível viver a vida que estão vivendo de forma diferente. Por isso riem e se empanturram de uma pseudo-alegria. Sabem que seu trabalho está infernizando sua vidamas esperam que algo melhore, ou que aquele sucesso que tanto almejam aconteça agora, no ano que começa. Sabem que há pendengas na família que não se resolvem mas, por alguma razão que escapa ao senso óbvio, acreditam piamente que acontecerá qualquer coisa que porá fim aos conflitos. Sabem que o dia de amanhã é o mais incerto já que de fato é uma coisa que não existe mas, por necessidade de crer no melhor, deve ser um dia mais feliz, mais proveitoso, mais calmo, mais tudo de bom. Sabem que o tempo traga a vida como uma sucuri a engolir um hipopótamo, mas querem que passe o tempo. Ali na frente, no próximo ano, estão os projetos e as mudanças. Ali, bem ali na frente, estão as decisões que não tomamos e uma vida nova a esperar. Está ali o casamento, o batizado, o nascimento de uma nova criança, a casa nova, a viagem dos sonhos, o novo ou o primeiro emprego, o carro importado, a formatura, a entrada na universidade, a aposentadoria precoce ou tardia, o aumento no contracheque, o novo governo, a nova vida, enfim.
Pensa-se tudo de bom nessa época. Algo errado nisso? Sim e não, eis a resposta. Não há nada de errado em pensar coisas boas para o futuro. E, sim, está tudo errado quando se pensa somente coisas boas para o futuro. No futuro está a alegria fugidia e as mais cruéis lições da vida. Vejam o meu caso, por exemplo.
          Por essa época, no ano passado, estava tudo uma maravilha. Em que pesem todas as pendências inevitáveis e recalcitrantes, a vida ia na maciota. Voltemos a, digamos, 24 de dezembro de 2009, há exato um ano. Eu pensava no Carnaval da Saudade do clube Náutico. Observem a minha estultice, a minha miopia, a minha ilusão compartilhada e coletiva. Pensava – isso vem a título de exemplo   – numa festa. Há algo melhor do que festas? Essa era apenas uma de minhas inúmeras tolices e expectativas.
         Veio o Carnaval da Saudade do Náutico e me empanturrei de tola alegria. Foi ao fim de fevereiro do corrente ano. A festa tinha a lógica da simbologia, representava aquele futuro próximo de meses antes. Representava também – por que não dizer? – o resto da vida que eu queria. Eu queria uma vida de Carnaval da Saudade. O que mais poderia querer? Cheguei onde quis. Consegui o que quis. (Falta plantar uma árvore.) A vida ia sem trancos nem barrancos. Minha representação do mundo era quase perfeita. Mal sabia o que me aguardava.
       Digamos, com certa empáfia, que, mesmo que não galgasse os paradigmas de sucesso socialmente impostos, chegara onde quisera e rejeitara os padrões por escolha e decisão pessoal. Tudo que se faz por escolha pessoal é algo soberano e realizador. Preenche a vontade de autonomia e autenticidade. Com efeito, é um forte sinal de maturidade plena e quase absoluta.
       Mas não é bem assim. O viver não dá trégua. Só se pode contar com a plenitude do amadurecimento se se aprender a lidar com as perdas. Não falo das perdas comuns, mas das perdas que amputam parte de nós. Anos e anos lidando com a morte (dos parentes e entes queridos dos outros) endurece o coração para nos resguardar do pavor de nossas futuras perdas, sobre as quais nunca pensamos, e da evidência da aniquilação. (Aqui fala o homem sem fé. Por isso é preciso orar e vigiar. Isso é ser humano: incapaz de acrescentar um fio de cabelo que seja à sua cabeça e cuja fé vacila.)
            Pouco mais de sessenta dias depois dos festejos e votos de feliz isso, feliz aquilo, a vida me traz a morte de minha mãe. Uma morte com calvário e tudo, onde as esperanças se findam dia a dia como a própria vida que se vai esvaindo; uma morte em que abandonamos a vida do dia a dia para sofrer todo dia e perceber que a vida segue sem você e que, se fosse você a morrer, seguiria a vida ainda; uma morte para lembrar como são tolas e vãs nossas aspirações e desejos; uma morte para me levar à humilhação de minha pequenez e noção de transitoriedade; uma morte para lembrar uma correspondência a um amigo anos atrás dizendo “felizes somos nós cuja desgraça ainda não  se achegou” com a firme e inabalável certeza de que ela jamais viria.
           Pois veio. Entre o antes e o depois, se espraiando sobre o infindável tecido do tempo, a pulsação da vida pára para dar lugar ao vazio das palavras que de nada servem. Resta a lembrança e um rombo no peito. Resta outro ano para novos desejos e votos. Quem sabe quantos mais virão?

“Pelo que tenho por mais felizes os que já morreram, mais do que os que ainda vivem; porém mais que uns e outros tenho por feliz aquele que ainda não nasceu e não viu as más obras que se fazem debaixo do sol.”(Ecl, 4: 2 e 3)

                                               “On aime la vie, mais le néant ne laisse pás d’avoir du bon.”[Ama-se a vida, mas o nada não deixa de ter o seu lado bom.] (Voltaire)

Fernando Cavalcanti, 24.12.2010