terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Morféticos apertos de mãos

               Custei a acreditar que têm superfície, também, os fatos, os gestos, o abstrato. Minto. Os fatos, não. Os fatos, já era de meu conhecimento, têm uma profundidade e uma superfície bem conhecidas. Já os gestos... 
               Mas, vejam o que traz a imprensa hoje. Morreu o Nelson Mandela, todos sabem. Nelson Mandela foi um homem incomum, um político com causa, um baluarte e uma excentricidade no mundo da política. Em outras palavras, um Ghandi mais recente. Tão especial era o homem que seus funerais serão – têm sido – dos mais longos. Será sepultado daqui a não sei quantos dias, tendo morrido há quatro ou cinco. Pois uma penca de chefes de estado e chefes de governo foram à África do Sul prestar homenagens ao líder morto. Eis, então, que lá se encontraram o Obama e o Raúl Castro, irmão do Fidel. E se encontraram também o Obama e Dilma, a impostura do Lula. 
               O Obama e o Castro divergem em tudo; simbolizam, cada um, o inverso um do outro. O Obama é o rico, o Castro é o pobre. O irmão do Castro, ao tempo em que existia a União Soviética, quase causa a guerra nuclear ao permitir que os soviéticos instalassem bases de mísseis com ogivas atômicas apontados para o Kennedy. Vê-se, somente pela intenção desses senhores, o que querem e a que custo. Terão mudado? Sabe-se lá. Por aqui têm piorado os que simpatizam com essa corja. 
               Mas, o Obama e o Castro viram-se, subitamente ou talvez não tão subitamente, tête-à-tête. Resultado: - foram obrigados a apertarem-se as mãos. É possível que tenham trocado tapinhas às costas e o Obama, que é um gozador nato, tenha alisado-lhe a face enrugada como fazemos com um querido amigo ao reencontrá-lo. (Os soviéticos tinham o hábito de oscularem-se na boca, selinhos entre homens barrigudos de semblantes austeros como a estampar a rigidez do regime. Parece-me que, aos dias de hoje, abandonaram esse hábito esquisito.) 
               Vejam, então, que os gestos adquiriram, como os fatos, uma superficialidade grotesca e aviltante. Antigamente eles eram, por inteiro, a profundidade em pessoa. Dizia-se que "um gesto vale mais que mil palavras". (Poder-se-ia dizer que vale um milhão e daria no mesmo.) O gesto carregava em si toda uma confissão, tornada pública ou não. Ele valia mais que uma promissória lavrada em cartório. Hoje, o que representa o gesto? a atitude? Resposta: - absolutamente nada. O aperto de mãos entre o Obama e o Castro é um desses eventos semelhantes ao choque de um pingo de chuva ao chão: - natural e sem significado. Os "analistas" políticos, senhores muito cheios de trejeitos e de vocabulário, apressam-se a fazer as mais benignas e malignas previsões e os mais malignos e benignos prognósticos quando diante de uma inusitado gesto. Dir-se-ia que eles, os prognósticos, garantem a venda dos jornais para os quais os "analistas" escrevem. Mas o incontestável está aí às fuças de todo o planeta: - esse foi um aperto de mão absolutamente formal e litúrgico. Não será por esse aperto que os estadunidenses passarão a vender fraldas e fogões em Cuba.
               Não bastasse o Castro, Obama viu-se, ainda nos funerais do Mandela, à frente daquela senhora de olhar fulgurante e frio, a presidente Dilma Roussef. Há pouco tempo ela e seus puxa-sacos diários indignaram-se por descobrir estarem sendo espionados pelas agências do Obama. Foi um fuzuê nas instâncias palacianas e até enviou-se um ministro a Washington para tomar satisfações com o negão. Ele até hoje não sabe da ida do ministro e não deu a mínima para os arroubos da senhora Roussef. O episódio encerrou-se com o cancelamento de uma viagem que ela faria aos Estados Unidos, agendada para dali a um ou dois meses. Melhor para nós, os contribuintes: - economizamos os gastos das sempre populosíssimas comitivas que se fazem para esse turismo oficial pouco produtivo. 
               Que fizeram Obama e Dilma ao se verem frente a frente? Ora, apertaram-se as mãos. A consequência de tal gesto? Forçoso é repetir: - nenhuma. O que ele pode representar? Nada vezes nada. Os súditos do senhor Obama seguem vivendo num país milhões de vezes melhor de se viver, ao passo que os sofridos de Dilma apenas continuam a se condoer das seculares mazelas que os afligem. Mais uma vez em curto espaço de tempo se viu o que significa a superficialidade dos gestos. Antigamente se dizia: - o que se faz fala tão alto que o que se diz ninguém escuta. Ledo engano, lamentável assumir.
               Antes, até há pouco, apenas as palavras haviam perdido sua força, sua capacidade de amenizar e resolver conflitos. Antigamente um "não" era apenas um "não", e o assunto tomava-se como resolvido. Com o tempo, ninguém mais queria aceitar o "não". Enquanto o sujeito não dissesse "sim", perturbavam-lhe o sossego de dia e de noite. Queriam o "sim" de qualquer jeito. Para as questões sem cabimento queriam o "sim". Era o estupro da palavra, da vontade, da liberdade e do amor. Eis que, hoje, mesmo o gesto, o esgar, a atitude e a ação também nenhum valor têm. Perderam todo o seu sublime significado, toda a sua carga axiológica. O aperto de mãos, como o "sim" obrigatório, servem apenas a entojar nosso já tão conturbado espírito.