segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Trogloditismos

              O problema com a rede social é que, com ela, nos empanturramos de pessoas. A coisa funciona assim: - quanto mais gente, melhor.  
               Minha querida amiga Alda Carvalho, mulher de meu também querido e amado amigo Ricardo Pereira, ambos dos saudosos e inesquecíveis tempos maristas, escreveu-me o seguinte: "Presidente, você não suportou o grupo, não é? Entra de novo e silencia, pra você olhar somente quando lhe convier, pois você é a célula-mãe. Não podemos ficar órfãos"! 
               O caso é que se criou um grupo de ex-alunos maristas em certa mídia. Súbito, vi-me membro do tal grupo, certamente inscrito à revelia por algum outro amigo. Certas fases de nossa vida não têm direitos autorais, de modo que outros delas de apoderam. Pois sem dúvida foi o que ocorreu.
              Era Natal e os participantes do grupo resolveram enviar as triviais e comuns mensagens que se enviam nessa data. Coisa de paradigma, nada mais, nada menos. Eu, que gastei a noite de Natal a dormir, enfronhado em minhas lucubrações e frustrações, e fugindo justamente desse lugar-comum, já não suportava esse ir e vir de desejos virtuais, dessa vacuidade convivencial, dessa superficialidade circunstancial. Naturalmente passei a me agastar com aquela troca insistente. (De fato, não era uma troca.)
              Que fiz? Simples: - excluí o grupo e suas tolas e entediantes mensagens. Alda percebeu. E, pessoalmente, escreveu-me a mensagem acima transcrita. Eis aí tudo.
              Voltemos ao problema que nos causa a rede social. Eu disse que, com ela, nos empanturramos de pessoas. Eu, que sou um agorafóbico de carteirinha e sindicato, detesto a rede social e todas as suas consequências. Ainda que dela me utilize, para mim ela é tudo o de ruim que o ser humano já idealizou e inventou. 
              Os imbecis, que sempre os há, quererão saber do porquê de minha aversão à rede social, e responderei que ela não é novidade. Muitos dos que me conhecem têm conhecimento de minhas reservas a essa moderna mídia. E admito: - poderia estar equivocado quanto a isso. O tempo, esse senhor da verdade, entretanto, tem demonstrado que o que penso sobre ela é a mais cristalina verdade. A rede social imbeciliza, idiotiza, intranqüiliza. 
              O que importa, no momento, é exteriorizar o que sinto hoje sobre a rede social. Hoje, mais do que nunca, odeio a rede social. Odeio a rede social com todas as minhas forças, com todo o meu ser, com toda a minha energia. Por me empanturrar de pessoas, a rede social me impõe o "efeito manada", um conceito simples sobre "animalização". Não sou animal e, por isso, deploro com minha máxima energia a rede social.
               Pois eis que, de tanto receber a  tralha grupal, resolvi excluir o grupo. Se estivesse a sofrer na intimidade, que me proporcionaria a rede? se ela mascara o homem, a pessoa, o indivíduo? Se assim faz a mídia, que tenho eu que permanecer a receber tanta coisa inútil, tanta coisa tola e vulgar? Meu sofrimento seria meu, somente meu. Que faria o grupo para amenizá-lo? Resposta: - nada! Assim, minha querida Alda há de entender minha ojeriza ao que se pratica na vida social.
                                                                  ***
                           Fiquei tentado a bisbilhotar, na rede mundial de computadores, algo sobre a invenção do carro. Resolvi, então, presumir. E presumi que, logo que o inventaram, venderam-se vários deles. Cada indivíduo quis ter o seu. (Atualmente vivemos, nesta decadente cidade, algo semelhante. Até há pouco queríamos ter um carro; hoje já pensamos em ter dois. O crédito está farto e a festa do endividamento não parece que esteja para acabar.) Henry Ford, o homem que o popularizou, de tanto vendê-lo barato, o vendeu às pampas. Nas ruas, engarrafamentos dificultavam o fluxo e, nos cruzamentos, os abalroamentos eram lugar-comum.
               Depois, e por causa disso, veio não se sabe de onde um sujeito e bolou o semáforo. O semáforo, diferentemente da rede social, foi a engenhoca mais simples e mais útil que o homem já inventou. Que seria de nós se não existisse o semáforo? Ele é, mais do que um dispositivo comum, um salvador de vidas, uma peça fundamental para o ser humano moderno. Em qualquer cidade do mundo, da África à Suécia, da Índia à rica Califórnia, qualquer que seja sua população, há de existir um desses bichos a controlar a ida e vinda de veículos. E – mais espetacular – em todos esses lugares, todos sabem o que significam as luzes vermelha, amarela e verde. Sem a utilidade a que se propõe, o semáforo mais se assemelharia a uma árvore de Natal destituída de qualquer viço.
               Todos sabem o que significam suas luzes. Por convenção elas dizem “Pare”, “Atenção” e “Siga” e, ainda por outra convenção, a imperiosidade da primeira luz se traduz pela cominação de penalidades caso haja desobediência a seu comando. (Convém consultar o Código de Trânsito e se certificar se a desobediência ao verde também impõe sanções.) Pois se conclui que, em todo o mundo, todos conhecem as convenções do semáforo. Bem se vê que a lei, que nada mais é do que uma convenção, é uma necessidade, dadas as possíveis situações e consequências de certas atitudes. No caso do Código, a lei, ao que parece, visa proteger três valores: - a vida humana, a integridade física das pessoas e o patrimônio de cada um. Vê-se que o desprezo a esse instrumento camufla algo muitíssimo mais terrível: - o desprezo da população por aqueles valores. Há uma ressalva a ser feita. Cada cidadão, que nessa situação deveria perder o título de cidadão, valoriza seu próprio patrimônio, sua própria integridade física e sua própria vida. O que ele despreza é justamente o que é do outro, uma circunstância que nos leva a pensar se Hobbes não estaria certíssimo em propor seu Leviatã repressor.
                Todas essas considerações têm-me vindo à mente com muita frequência em meu dia-a-dia. A razão? Simples: - nunca, em toda minha vida, presenciei tanta gente “furar” o semáforo impunemente e irresponsavelmente, como acontece em nossa babélica cidade. A bem da verdade, outra convenção tem sido tão ou mais "esquecida" que a desobediência ao semáforo: - o trafegar na contra-mão. 
               À época em que o senhor Ford produziu pela primeira vez o carro em série, era preciso disciplinar o tráfego em algumas vias. Provavelmente algumas ruas, de tão estreitas que eram, não permitiam o fluxo de carros nos dois sentidos e veio outro sujeito metido a besta e idealizou a via de sentido único. Isso evitaria congestionamentos e regulamentaria o tráfego em determinadas áreas. Em Fortaleza, há muito o conteúdo tornou-se maior que o continente e alguns condutores passaram a questionar a via de mão única como solução para aquele dilema primevo. Desta forma, elas e o semáforo estão em baixa por estas bandas. Quase nada valem. Do jeito que vão as coisas – sem valor a integridade física, a vida, o patrimônio, o semáforo, a via de sentido único, etc. –, em breve evoluiremos de babélicos para sodômicos. 
                                                                       ***
               A grave fratura sofrida, antes de ontem, pelo lutador Anderson da Silva expôs, em minha humílima opinião, o trogloditismo do "esporte" que ele pratica. (Diz o Lobão que vivemos num país que não suporta opinião e qualquer coisa mais contundente que se fale é levada a ferro e fogo para o terreno pessoal.) Seja qual for o nome da modalidade – luta livre, artes marciais, etc. etc. –,  ela se resume numa troca de agressões físicas com um único propósito: - ferir ou machucar o adversário. Não me venham seus defensores fazer apologia a esta prática tentando justificativas tolas. 
               Em favor do que digo estão as imagens gravadas desta sangrenta atividade que as multidões tanto apreciam. Na última luta entre o senhor da Silva e seu oponente do último sábado, ocasião em que ele perdeu seu título de campeão mundial, seu técnico se esgoelava cá de fora porque ele dançava, em provocações, diante do adversário. O que o técnico gritava? Dizia: -"Machuca ele! Machuca ele"! O resultado é que numa daquelas palhaçadas provocativas o senhor da Silva vacilou, recebeu uma série quase ininterrupta de socos na cara e perdeu a contenda. As imagens dos socos evidenciam o que já afirmei. Cada vez mais os animais são mais queridos pelos seres que se dizem humanos. É perfeitamente explicável.