sábado, 14 de dezembro de 2013

Bombons e flogoral

              Fumava muito. E bebia. No trabalho, impossibilitado de uns goles, só fumava. Era cardiologista. O peso aumentava. Comia sem controle. Ao término das longas jornadas, ia ao bar. Saía de lá, sempre, em deplorável estado de libação alcoólica.
             Acontecera o seguinte. A mulher, Dora, não queria mais. Ele saiu de casa a muito custo. Os filhos – eram três – nada puderam fazer. Meteu-se num quarto-sala diminuto, pouca mobília, de frente a um parque. Ao início de sua desgraça, lá só ia para dormir, desmaiar de seus porres. A solidão daquele cafofo era o atestado de seu fracasso amoroso, de tantos sonhos sonhados, tantos projetos incompletamente executados...
             Passado certo tempo, quis voltar. A mulher, até certo ponto condoída de seu sofrimento, propôs um jantar. Depois do jantar, tanto fez que levou-a para a cama. Voltar mesmo ela não consentiu. E ele retornou ao dia-a-dia menos abalado com a situação. Afinal, matara as saudades. Um dia, refletindo melhor, talvez ela resolvesse acabar com aquela bobagem de separação. 
            O diabo é que não precisava dele para nada. Filha de família rica, o certo é que por necessidade não reataria. Antes fosse do lar, mulher sem renda, sem profissão. Ainda que não trabalhasse, vivia de renda, investimentos, fundos e aplicações. O pai, rico, sempre a orientara nesses assuntos. Mulher independente é o diabo, pensava. 
             Dali a alguns dias voltaram a se encontrar, agora para um almoço. Pediu para voltar, mais uma vez. A insistência a exasperava. Não, não queria que ele voltasse. Ainda não. E foi sincera: - talvez nunca mais quisesse. Aquilo o feriu profundamente. Pediu outra dose de uísque. O garçon virou-se e ele, elevando um pouco a voz: -"Duplo"! Quando veio o copo com a bebida, meteu a mão e tirou-lhe todo o gelo. 
              Dali em diante a conversa tomou um rumo inesperado, tenso, pouco civilizado. Teimoso, insistia; ela, por sua vez, resistia. E diga-se sem meias palavras: - era sem dificuldade que resistia. Dir-se-ia não mais lhe nutrir sentimento algum. Acabaram agredindo-se verbalmente. Ela livrou-se dele num repelão quando tentou abraçá-la. 
             Aquele segundo encontro esmagou-lhe todas as esperanças. Bebia mais, e mais frequentemente. Fumar nem se fala. Esquecera-se de que era médico. No trabalho, agia sem pensar. Todos os algoritmos lhe estavam na memória. Era um autômato. A excelência de sua formação compensava seu constante estado de embriaguez. Tentava disfarçar o hálito chupando bombons e gargarejando flogoral. Quase não comia ou, melhor, quando comia, comia como se fosse comer toda a comida do mundo. O abdome, que já era volumoso, parecia ainda mais dilatado. 
              Dias depois conseguiu, a muito custo, marcar novo encontro. No semblante ela trazia o tamanho de sua contrariedade e dissabor por estar ali. Ele ensaiara um discurso. Limpou um pigarro; disse-lhe bem menos do que pretendia. A labilidade emocional traía seus hábitos diários. A verdade é que se tornara um trapo de gente, quase um lixo. Era um ser desprezível. O discurso, preparado com tanto zelo e esperança, soou patético. Ao fim, foi taxativa:
              -"Nunca mais me telefone, ouviu"? 
              -"Mas, fulana"... 
              Ela virou-se e saiu, deixando-o ali, plantado, sem ação, sem vida; sem futuro, sem passado... Poucas semanas depois foi internado numa clínica para toxicômanos. Não sei se passara a usar outras drogas, mas está lá até hoje.