sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A "verdadização" da mentira

               O pior problema que se vive hoje no país é o da "verdadização" da mentira. Que seria isso?, perguntar-me-ão os caríssimos e pouquíssimos leitores. 
               Outro dia o meu amigo Paulo Prado, comunista até o semi-eixo – comunista mesmo, de verdade, ele não é, já que não distribui dinheiro (a mais valia) e não quer nem nunca quis morar em Cuba – mandou-me ler o Mein Kampf, sugerindo que eu o adoraria já que, para ele, sou um "reaça" de carteirinha. 
               Esse pessoal que se diz "de esquerda", por exemplo, bebe em fontes cujo conteúdo é qualquer coisa, menos a verdade. Vejam o Paulo Prado. Para ele o nazismo foi uma ditadura de direita. Por isso mandou-me ler o livro do segundo maior assassino de todos os tempos (o primeiro é o Stalin). Esqueceu-se que os nazistas odiavam os judeus justamente porque, para eles, o capitalismo – vejam bem: o capitalismo! – que tinha sua base nos judeus alemães, e a democracia eram os grandes responsáveis pelo caos da Alemanha na República de Weimar. Mais ainda. Para eles, os judeus e o comunismo eram os culpados pela crise econômica e política européia. O fato de os nazistas desprezarem também o comunismo, é provável, leva o meu amigo e outros de nossos comunistas a afirmarem peremptoriamente que os nazistas eram a direita encarnada e esculpida.
               Esqueceu-se também e convenientemente o meu amigo que os nazistas assinaram com Stalin o Pacto Germano-Soviético, uma espécie de promessa de não-agressão bilateral. Nem por isso diremos serem os comunistas nazistas disfarçados. Mais tarde Hitler invadiu a União Soviética e o Pacto foi para as cucuias, como é bem sabido de todos.
              Ora, Hitler e seus comparsas tinham um projeto de dominação global, caro Paulo Prado. Não queriam o capitalismo. Afinal, a Primeira Guerra deixou a Alemanha com ele, o capitalismo, seriamente endividada. Dos comunistas só queriam o apoio da classe trabalhadora e nada mais; e não queriam os livros nem nada que não fosse engendrado pela poderosa máquina de propaganda nazista. Josef Goebbels, quando líder regional do Partido Nazista em Berlim, utilizou seu dotes de propagandista para combater o Partido Social Democrata da Alemanha e o Partido Comunista da Alemanha. Os nazistas não queriam nem gostavam do comunismo, não queriam nem gostavam do capitalismo, não queriam nem gostavam da democracia, não queriam nem gostavam dos livros que não dissessem o que eles queriam fosse dito. O que eles queriam e do que eles gostariam, Paulo Prado? Queriam o Terceiro Reich, meu prezado falso comunista! Gostariam de ter dominado o mundo, eis aí a verdade verdadeira.
               Falei tudo isso apenas para dar um exemplo de tentativa de "verdadizar" a mentira. Os fatos já vão longe, mas a história está aí a mostrá-los. O senhor Goebbels, competente ministro da propaganda nazista, tinha como princípio pétreo e fundamental de sua propaganda justamente a "verdadização" da mentira. Segundo ele, uma mentira repetida tantas e tantas vezes tornar-se-ia uma verdade em curtíssimo espaço de tempo. Quanto mais se repetisse a mentira, mais verdade ela seria. E assim, o povo alemão, com honrosas exceções, foi completamente dominado pelas idéias que este senhor, mancomunado a seu amado e idolatrado líder, o Führer, fez vicejar e divulgar naquele pobre país. 
               Pois eis que saí ontem a ler o editorial do jornal O Povo. Há algum tempo tenho observado que o jornalista que o escreve tem-lhe trocado a cor da chapa. Ou, melhor, a chapa era meio acinzentada, mas nos últimos anos passaram-lhe um alvejante e ela transmutou-se numa exuberante chapa branca. Pois o editorial do O Povo de ontem (31.10.2013) foi escrito com a mesma mão que acaricia o saco dos poderosos do momento. Que diz, afinal, o tal editorial? Vejamos.
               O título é emblemático: "Bolsa família: dez anos de retração da miséria e da exclusão" (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2013/10/31/noticiasjornalopiniao,3155798/bolsa-familia-dez-anos-de-retracao-da-miseria-e-da-exclusao.shtml). Por aí já se vê uma tentativa de engano, mas o autor cuidou, manhosamente, de, ao desenvolver o tema, pontuar os vários índices supostamente melhorados com o bolsa família, os vários prêmios internacionais ganhos pelo bolsa família, os vários reconhecimentos do bolsa família por parte de entidades que desenvolvem atividades contra a miséria no mundo.
               O termo "retração" é enganoso porquanto carrega uma carga de ambiguidade inaceitável. Dizendo de outra forma, por ser um tema de indiscutível potencial de uso como moeda de troca política, o termo de ambíguo passa a ter o caráter da mentira. Por exemplo, digamos que o sujeito tenha um grande tumor maligno nas cordas vocais. (O sítio primário desse tumor é proposital. O exemplo é meu e faço o tal tumor crescer onde bem quiser e entender.) O pessoal lhe faz um tratamento radioterápico e, após algumas semanas, vem a notícia: - houve uma retração do tumor. Fosse eu o paciente exigiria de meus médicos uma imediata e detalhada explicação do significado e importância dessa tal retração. Vá enganar o cão com reza! Na "retração" da miséria do bolsa família a mesma coisa. 
               O que sei é o que vejo. E o que vejo – e não estou a ver sozinho – é ainda muita miséria, e miséria da grossa. E ainda muita fome, e fome da grossa. Assim, das duas uma: ou sou um sujeito de enorme má vontade, ou a retração foi insignificante, como o deslocamento da placa com o terremoto do Chile. (Foi no Chile ou foi no Haiti?) Os índices do editorialista? São as ferramentas de "verdadização" da grande mentira que é esse bolsa família. Percebam: - na "verdadização" a mentira adquire, definitivamente e irremediavelmente, o status de verdade. Somente uma hecatombe pode destruí-la.