terça-feira, 26 de novembro de 2013

O velho e o monstro

               Esta bem que poderia ser uma história de terror, não fossem seus contornos cômicos e patéticos. Os leitores hão de julgar.
               Ocorreu em hospital público desta cidade, recentemente notabilizada por seus descaminhos, seus horrores e seu incaracterístico odor. O dito hospital bem pode representar tudo o que ela tem de pior, visto que ali desembocam todos os seus rios e todas as suas tragédias. Enquanto representantes do povo fazem valer o que é do interesse do próprio povo, rios de sangue, ignorância e escuridão afluem a seus portões para gerar o caldeirão de ácido fervente de seu dia-a-dia. Foi assim. 
               O velho acusava o outro, seu companheiro de enfermaria, de tê-lo furtado o dinheiro, uma quantia irrisória, uns cinqüenta ou sessenta contos. Sobras da aposentadoria, daria para passar o resto do mês. Agora, roubado, via-se em maus lençóis, inda mais se os médicos resolvessem mandá-lo para casa. Seu caso poderia esperar, não era grave. Os médicos cogitavam cuidar, primeiramente, dos casos mais sérios e dar alta aos outros, que seriam chamados depois. O suposto larápio, elemento mal-encarado de corpo tatuado, estava preso ao leito devido a tração aplicada aos ossos da perna por causa de uma fratura.
               O que não se explicava era o seguinte. Como um sujeito incapacitado daquela forma ainda poderia ter roubado alguém? Não era nem besta!... Isso usava em sua defesa. “Esse ‘véi’ ‘tá é maluco!”, exclamava o acusado. O velho não deixava por menos: -“Roubou, sim, cabra safado!” A confusão e troca de insultos já se arrastavam por vários dias sem que se desse uma solução ao caso. Até o dia em que a coisa ficou mesmo feia, o idoso ameaçando avançar sobre o acamado e agredi-lo.
               Chamou-se a segurança. Vieram os soldados e o comandante. Acalmados os ânimos, os policiais acataram a acusação e resolveram dar uma batida nos pertences do suposto ladrão. Reviraram tudo. Desnudaram o colchão, os lençóis, as fronhas do travesseiro. Até as molas e engrenagens da cama foram inspecionadas, e não se esqueceram de virar o leito de ponta-cabeça a fim de olhar dentro das ocas colunas de metal que lhe serviam de pernas. Terminado o serviço, nada acharam.
               O suposto mau elemento já troçava com o pobre homem: -“’Num’ disse, ‘véi’? Tu ‘tá é virado! tantã das ‘ideia’”! O velho, os olhos fixos nos do outro, não arredava: -“Me roubou, ‘fi’ de rapariga”!... Os outros doentes da enfermaria já se riam dele, e dali em diante pensou-se mesmo que o homem sofresse de tal ou qual prejuízo do juízo. Ainda assim, não se retratava: -“Quando sair daqui ‘vô’ matar ess'escroto! Ladrão vagabundo! Cabra ‘senvergóim’!”
               Apesar do clima tenso, a coisa amainou nos dias que se seguiram.
               Certo dia, vai para a cirurgia o inocentado. Na mesa cirúrgica o anestesiologista lhe faz um bloqueio. (Esses bloqueios neurais têm o efeito de promover um completo relaxamento da musculatura pélvica.) 
               Feito o bloqueio, as meninas começam os preparativos para a anti-sepsia. Neste momento, uma delas percebeu algo esquisito saindo pelo ânus do paciente. Não seria o conteúdo habitual. 
               “Que é isso, gente”?, indagava de si para si a auxiliar. Foi quando tudo se fez claro.  Era um saquinho plástico contendo seis notas de dez e uma de cinco reais: - sessenta e cinco reais roubados do velho maluco guardados por vários dias no reto do presepeiro.
               Que nome se dá a isso no juridiquês? 

Fernando Cavalcanti, 12.11.2010