quinta-feira, 7 de novembro de 2013

...tanta desgraça grassa...!

               Que dia é hoje, mesmo? Ah... aqui está: - 7 de novembro. Se hoje é 7 de novembro, daqui a oito dias será 15 de novembro. Há quase 124 anos um pouco convicto e, por conseguinte, hesitante Deodoro proclamou a República. E por que hesitava o marechal? Porque ele não tinha nada de republicano. Era, isso sim, um monarquista até o semi-eixo. A um sobrinho que estudava em escola militar no Sul, integrante da "mocidade militar"– jovens estudantes de escolas militares no Brasil com aspirações republicanas –, escreveu um ano antes: "Não te metas em questões republicanas, porquanto República no Brasil e desgraça completa é a mesma coisa; os brasileiros nunca se prepararão para isso, porque sempre lhes faltarão educação e respeito". 
               Eis aí o Brasil como sempre foi: - o país onde o acaso frequentemente se intromete nas causas e concausas, levando à escrita de livros que só enfatizam o primeiro, tentando, talvez, embutir, no fato, uma necessária mas ausente glória. Isso sem falar que o pobre marechal quase não se sustentava em pé de tão doente que estava, ao dia em que subiu ao cavalo para ir proclamar a nova forma de governo. Deveria lá ter ido o Benjamin Constant, coronel e professor de matemática da Escola Militar e republicano convicto. Vai ver foi justamente a debilidade do marechal e sua pouca firmeza nos ideais monárquicos – era monarquista mas já a sabia débil – que emprestava então uma simbologia tão apropriada ao ato. 
               Mas, que fique para lá a proclamação e o 15 de novembro histórico. Cento e vinte e quatro anos anos não são cento e vinte e quatro dias embora, vez ou outra, surjam aqui e ali alguns que se auto-denominam "monarquistas" tentando ressuscitar a polêmica sobre se a mais que centenária república é mesmo a melhor forma. Estarão se valendo da frase do marechal? que diz que no Brasil República e desgraça são a mesma coisa? (Oh, Senhor!... No momento tanta desgraça grassa...! Pobres de nós!...) 
               (Falo às pampas e não entro no assunto.) 
               Pois o que eu queria dizer é que o que me interessa, neste exato momento em que escrevo essas notas, é chamar a atenção para o próximo 15 de novembro, data de comemoração de aniversário do meu querido amigo Sérgio Moura. Fará o que?, cinqüenta e poucos anos, se tanto. O jovem atual ouve "cinqüenta e poucos" e parece que está a ouvir a propaganda das lojas Vox. Os velhos de minha infância, que eram os mesmos da do Sérgio Moura, eram velhos bem velhos, com aparência de velho, cabelo de velho, roupas de velho, e tiques de velho. Explico melhor.
               Quando eu era menino, meu pai era um galã de cinema e minha mãe uma princesa de conto de fada. Ele usava calças à Beatles e penteava os cabelos como o Tyrone Power; ela usava gigoletes e tiaras como os da Grace Kelly, e tinha a pele como a da Grace Kelly, e as mechas da Grace Kelly, e o olhar da Grace Kelly. Assim, não me parecia a mim que eram velhos. Não eram velhos. Os velhos de minha infância – eis o que quero dizer – eram velhos mesmo. Eles cheiravam a talco PomPom e quando morriam, morriam tão docemente quanto viviam, e eram velados na sala de estar.
               O Sérgio Moura, não é o caso do Sérgio Moura. Digo, o Sérgio está muitíssimo longe da velhice. Vejam que o meu amigo, em que pese sua cabeleira inteiramente encanecida, é uma potência de cabeleira, por exemplo. Permanece aquele jovem das tardes e manhãs maristas e, depois, aquele jovem das noites e toadas soteropolitanas. Levou lá as bordoadas que a vida dá e, de passagem, aplicou à vida a sua contribuição de homem normal. Assim, não se justifica e, necessário repetir, não se justifica o que ele faz. 
               Que faz o Sérgio à zero hora do dia de seu natalício? Faz o seguinte: - desliga o telefone portátil. Entra ano e sai ano e o Sérgio Moura, ao dia de comemoração de seu nascimento, desliga o telefone portátil. E mais. Não somente desliga o telefone portátil, como também desliga o telefone fixo, as redes sociais, o correio eletrônico, o radinho de pilha – ele é daqueles que adoram radinho de pilha transmitindo aquele sujeito de voz esganiçada se esgoelando a narrar o lance –, e desliga até a TV a cabo. Desconfio que trancafie-se no quarto e até despache a mulher à casa de algum parente mais próximo.
               É tão impressionante a atitude do amigo que ele já começa a fazer escola. Tanto que o Fábio Motta, dono do mais pagão santo sudário da atualidade, também deu ultimamente para essa abduções voluntárias e inexplicáveis. No último 23 de março, dia de seu aniversário, sumiu o Fábio Motta. Reapareceu ao dia seguinte com uma lista de desculpas as mais esfarrapadas possíveis e previsíveis. Mal sabe ele que sua mulher, interessada em lhe remover daquela tristeza abissal, relatou-nos seu lamentável estado de putrefação. Assim, já são dois os amigos que contam-se no grupo dos apreciadores de uma deplorável e desnecessária "morte simbólica". Estão a beber no poema do Pessoa que diz: – "morrer é apenas não ser visto".
              Por tudo isso é que resolvi acabar com esse negócio. Aí está. Venho voluntariamente propor ao Sérgio Moura. Sim, venho pedir, implorar, exortar. Promovamos o rega-bofe, meu caro. Em tua casa. Em teus domínios. Que tal na véspera, dia 14? Ainda podes chorar ao 15, se quiseres. Percebeste? Sei, sei que dá um trabalho danado, sujam-se pratos, copos, talheres, a churrasqueira, o urinol, a pia... Levamos tudo, inclusive o churrasqueiro, que ao final dará cabo da sujeira. Queremos apenas te convidar. Compreendeste? Levanta-te, Sérgio Moura!...

Alma viúva das paixões da vida,
Tu que, na estrada da existência em fora, 
Cantaste e riste, e na existência agora
Triste soluças a ilusão perdida;

Oh! tu, que na grinalda emurchecida, 
De teu passado de felicidade
Foste juntar os goivos da Saudade
Às flores da Esperança enlanguescida;

Se nada te aniquila o desalento
Que te invade, e pesar negro e profundo, 
Esconde à Natureza o sofrimento,

E fica no teu ermo entristecida,
Alma arrancada do prazer do mundo,
Alma viúva das paixões da vida.

(INFELIZ, Augusto dos Anjos)