segunda-feira, 25 de novembro de 2013

PERIGOS MORTAIS NA AUSTRÁLIA

               Ligou-me antes de ontem, direto do Piauí, o meu amigo Chico Medeiros. Queria saber como andam as coisas por essas bandas cearenses. No Piauí chove dilúvios, segundo ele. Aqui, por enquanto, nada... Os céus andaram meio nublados, pesadas nuvens negras e esparsas obliteraram a luz do astro-rei até ontem pela manhã. Depois se dissiparam e veio ele, o sol. Ou seja: - em termos pluviométricos estamos a perder feio para o Piauí. 
               Não pude deixar de lembrar ao amigo que, aqui, estamos do lado mais fraco da guerra que ora nos assola. Estamos do lado desarmado. Nossa única defesa é a sorte de não estar no lugar errado da cidade na hora do ataque surpresa. O amigo ponderou que por lá é a mesma coisa, em menor escala absoluta, mas em proporção semelhante. Concluímos: - nossa tragédia é brasileira; não é cearense, nem piauiense, nem maranhense... 
               Ia esquecendo de dizer. Meu amigo Chico Medeiros tem um apelido desde a infância e cuja origem nem ele saberia explicar. Era "Batata". Sim, seu apelido era "Batata". Hoje o homem é pai de dois filhos adultos que nem imaginam que o pai, em criança e na adolescência, atendia pelo apelido de "Batata". Já nós, seus diletos e diários amigos, irmãos que conviviam em tudo, ficamos à saia justa quando diante de pessoas de seu novo círculo. Como hão de encarar o respeitável pai de família e profissional exemplar que atendia pelo apelido de "Batata"? 
               Para nós, parece que foi ontem. Ele virou para nós e avisou: -"Vou-me embora pro Piauí". Eu disse: -"Mas, Batata, pro Piauí"? 'Num' tinha um lugarzinho melhor, não"? E fui explicar que o sujeito que mora num Estado miserável como o nosso tinha que pensar em ir para um lugar onde o dinheiro "rolasse", onde as oportunidades se apresentassem a toda hora, onde, enfim, as chances de sucesso profissional fossem maiores. Ele foi irredutível: -"Vou é pro Piauí"! Após uma breve pausa, fuzilou, pondo uma pedra no assunto: -"E estamos conversados"! 
                Após alguns meses por lá, retornou de férias. Perguntei-lhe: -"E aí? Que tal o Piauí"? Ele foi taxativo: -"Estou fazendo estágio para ir pro inferno"!..., e saiu a queixar-se da canícula piauiense. Dizia: -"Em Teresina tem ar condicionado até nos banheiros"... 
               Depois disso, e de volta ao Piauí, foi ficando, ficando, ficando... até que contraiu núpcias e se aquietou definitivamente por lá. Raro vir ao Ceará e, quando vem, não esquece de pôr na bagagem casacos de couro e de lã. "A gente se acostuma", explicou sobre sua perfeita adaptação ao clima. Numa sumária avaliação pode-se dizer o seguinte: - Batata, digo, Chico Medeiros, se deu bem no Piauí. Essa é a inquestionável súmula do resultado de sua emigração. 
               Tão bem foi o nosso Batata, digo, Chico Medeiros, que seu primogênito, que hoje estuda em São Paulo – veja-se que o filho foi mais ousado que o pai –, está cogitando voar mais alto. Resolveu com a mesma determinação do pai. Disse-lhe, certo dia e sem muita embromação: -"Vou morar na Austrália"! Ora, vivas! Dar um pulo em São Paulo foi apenas o estágio intermediário para pretensões mais elevadas. A família teve um sobressalto, nada sério, apenas incômodos da paternidade, zelo pelas eternas crianças que são os filhos. 
               Contudo, vejam que os cuidados que dedicam os pais aos  filhos muitas vezes beiram o desnecessário e, por que não dizer, beiram o cômico. Chico, após o meu comentário sobre nossa violência urbana, lembrou que "lá fora" também há perigos, sim, o exterior tem seus próprios riscos. 
               Por exemplo, lembrou ele, há lugares mais sujeitos a desastres naturais, maremotos, terremotos, tsunamis... "Ora, Batatinha" – eu já estava falando com ele como há quase quarenta anos quando o chamava para uma peladinha no terreno baldio –, "mas na Austrália não há tanto perigo de desastres naturais". Continuei: -"Fosse nas Filipinas, ou na Indonésia, vá lá...mas na Austrália? Não há perigo, meu chapa"! 
               Ele insistia nos perigos, e na Austrália há perigos , sim senhor! "Por exemplo", disse ele, "tão logo o menino resolveu ir pra Austrália, fui ler tudo sobre a Austrália. E, veja você, descobri o seguinte". Aprumei-me no sofá para ver que perigos há na Austrália que eu desconheço. "Descobri que há, lá, uma água-viva cujo veneno é capaz de matar um rinoceronte em questão de minutos"!, admirou-se ele. "E mais: - ela é do tamanho de uma unha do pé"! Juro que jamais ouvira falar numa medusa tão peçonhenta como essa medusa australiana. Disse-lhe que pedisse ao filho a que evitasse o banho de mar na Austrália. Ele fez uma ressalva como a tranquilizar a nós ambos: - essa água-viva habita os mares do norte do país, e seu filho irá morar numa cidade ao sul. A questão do perigo marinho parecia resolvida.
                "Mas não acaba por aí, meu chapa", disse ele tomando novo fôlego. "Das dez cobras mais venenosas do mundo, sabe quantas tem a Austrália"? Imaginei que a Austrália era o lar de onze das dez cobras mais mortais do mundo. "Oito, meu irmãozinho! Oito, viu"? Ora, Batatinha, é só dizer ao menino que não entre na mata e está resolvido! Simples assim, meu chapa! Ao que parece ele já advertiu o garoto sobre o risco desses acidentes ofídicos, embora não tenha me parecido plenamente convencido. 
               "Batatinha, meu filhinho, deixa de frescura"!, disse eu sorridente. "O menino vai sair do país onde habita o bicho mais mortal de todos"! Esperei um pouco antes de enterrar-lhe nos peitos, até o cabo, o punhal da verdade. "O bicho que mata mil vezes mais do que toda a população de águas-vivas e cobras venenosas do mundo habita aqui, meu querido amigo: - o bicho-homem, o brasileiro que odeia e mata por qualquer dez mil réis, Batatinha"! 
               E assim nos despedimos.