quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Nevasca no coração

               Uma amiga fez o seguinte comentário na rede social. (Redes sociais são, cada uma delas, universos paralelos onde acontece de tudo, quase como na vida de nosso universo real.) 
               Disse ela: -"Começou a nevar... saco! Agora vai até abril"... A informação-chave é que, onde ela está – já, já digo onde é –, o frio já começou por lá. Se lá neva às portas de dezembro, presume-se que ela esteja no hemisfério norte, cujo inverno se inicia em 21 do próximo mês, data do solstício de inverno naquela parte do mundo, daqui a exatamente um mês contando de hoje.
               A outra informação que o discurso de minha amiga traz é pessoal: - ela, decididamente, não gosta de neve e, por presunção, não gosta de frio. Tanto mau gosto faz do frio que não pensa noutra coisa que não seja sua duração. "Agora vai até abril"..., diz ela. Por mais de quatro meses minha amiga vai sofrer com o frio que está a fazer por lá. 
               Tudo isso qualquer pessoa que esteja a bisbilhotar à rede social será capaz de deduzir com relativa facilidade, e desde que saiba um pouquinho de geografia ginasial. ("Geografia ginasial" é a expressão mais adequada para o uso deste autor: - sou do tempo do "ginásio".) Contudo, para que os leitores façam uma melhor apreciação do que estou para dizer, necessário é confessar onde está minha amiga. Ela está em Montreaux, na Suíça. E apresso-me a dizer: - ela não só está como mora em Montreaux. Não sei se já foram à Suíça. Se não foram, hão de desejar ir um dia. 
               Pois, certa vez, fui à Suíça. Lá chegando – foi em Zurique –, desci do avião e pensei: -"Onde está o povo"? O aeroporto era enorme e... não havia ninguém no aeroporto. Só havia um guichê aberto na imigração, justamente aquele onde nos postamos para a inspeção dos passaportes. (Os demais, incontáveis outros, estavam fechados.) E não chegaram outros voos no mesmo horário?, perguntarão os leitores. (Meus leitores são em menor número do que a população da Sibéria setentrional.) Resposta: - só o nosso voo, com pouca gente. Afinal, voamos de Paris a Zurique num CityJet, um aviãozinho provido de hélices, cujas asas eram encaixadas ao tubo por sua parte superior. 
               Peguei um táxi para a cidade e durante o trajeto percebi: - seria feriado ou coisa que o valha, já que nas autopistas não circulavam carros em quantidade que justificasse sua existência. Aquelas estradas largas, lisas e múltiplas estariam quase vazias por conta de algum feriado nacional, pensei. O motorista foi taxativo: - não era feriado. Onde estão as pessoas?, era o que queria saber. Ora, estão trabalhando!, respondeu-me olhando com uma expressão de divertido espanto. Com efeito, era uma segunda-feira.
               No hotel, ao sair do elevador para ganhar acesso ao quarto, ouvi um silêncio tão intenso que quase me fura os tímpanos. Poder-se-ia ouvir o som de um alfinete caindo ao chão. Pensei: -"Onde estão os hóspedes com suas crianças barulhentas"? Uma jovem camareira me esclareceu: - o hotel estava lotado, mas era assim mesmo. "As pessoas aqui não fazem barulho; apenas nos bares o senhor ouvirá algo parecido com um ruído mais intenso", continuou ela simpaticamente a me satisfazer a curiosidade neófita. 
               Subi no bondinho após comprar os passes numa espécie de banca de revistas. Segurava o passe à mão a espera do "trocador". De fato, ninguém apareceu para averiguar o passe, nem o meu, nem os dos outros usuários do bonde. Ninguém fiscalizava os passes. Perguntei a um jovem mancebo o que deveria fazer com o passe e ele me explicou que ele valia o dia inteiro. A fiscalização era eventual, mas se alguém fosse flagrado usando o bonde sem o passe seria severamente multado; tão severamente que não convinha arriscar-se. Ademais, as pessoas sabiam que o bonde existia para seu próprio uso e benefício, e seria uma estupidez não zelar por aquilo que todos usufruíam. Sabiam que a qualidade do transporte dependia em grande parte do próprio usuário. 
               Só agora percebo que não era nada disso o que eu queria dizer. Afinal, quem está interessado em saber do que fui fazer na Suíça? Voltemos à minha amiga de Montreaux.
               Disse-lhe, na rede social: -"Melhor a neve, infinitamente, do que nossa canícula meteorológica. Aqui neva nos corações, cara amiga... Estamos nos matando de tanto ódio". Eis aí tudo: - estamos-nos matando de tanto ódio. Minha amiga, que, ao que me conste, está a estudar em Montreaux, não percebe que o frio meteorológico de lá nem de perto se compara à nevasca que irrompeu cá, no mais profundo íntimo do coração do brasileiro. Estamos doentes do ódio, da vontade de morte do outro, da vontade de miséria do outro, moral ou patrimonial. Perdemos o senso, perdemos o norte. Somos quase duzentos milhões de solitários e de inimigos mútuos a sofrer a influência nefasta de uns poucos manipuladores, que transformaram nossa boa vontade em ânsia de odiar. 
               Milhões de vezes preferiria Montreaux e sua neve, olhando através da janela a bucólica paisagem, saudoso de minha terra idealizada à minha maneira, à quimera que bem entendesse... A neve de Montreaux tem data para se dissipar, amainar e deixar vir a estação das flores, que multicolorirão os campos e as matas e deixará vir os pássaros a beber o néctar após sua viagem de fuga... Ah! um frio exterior bem que vem a aquecer os corações!... 
               E os gélidos corações? a que vêm? Não se sabe... O Mal não tem propósito. Nem Ele o entende. Pobres de nós...