sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O anjo da morte é o governo

          Admitamos: - dessa vez até que o senhor Plínio Bortolotti disse menos besteiras. Uma besteira é sempre uma besteira, nada mais, nada menos. Que disse ele desta vez? Bem, de fato ele nem chegou a dizer; apenas insinuou. Insinuou que o médico brasileiro, “com as devidas exceções”, não admite ser questionado. Não, não insinuou. Estou a lhe reler o texto de ontem no jornal O Povo e vejo que ele o afirmou categoricamente. Para insinuar, trouxe à baila o que lhe teria relatado um médico sobre como um colega nutria verdadeira fobia por seus pacientes, a ponto de pregar ao chão a cadeira onde eles se sentavam para a consulta, a fim de não correr o risco de dele se aproximarem.
            O fato tem tudo para ser verídico. Afinal, não há ser humano perfeito, assim como não há médico perfeito, nem padre perfeito, nem engenheiro perfeito... Mas insinuar que, além de não gostar de ser questionado, o médico brasileiro tem fobia pelo ser humano, já é demais.
            Por exemplo, não tenho fobia a jornalistas, embora considere, como já deixei claro inúmeras vezes aqui neste modestíssimo blog, que o jornalismo que se faz nesta terra é de uma pieguice sem tamanho, de péssima qualidade mesmo. E confesso: - já nutro uma verdadeira fobia e um cristalino horror por esse jornalista, o senhor Plínio Bortolotti. Ele é tendencioso e falacioso. Escreve – vejam bem: escreve! – sem conhecimento de causa. O sujeito que tem a função de informar e mal informa torna-se uma praga informativa e uma fonte pra lá de duvidosa. Que ele tenha lá suas preferências nada mais justo, nada mais natural. O que ele não pode nem deve é divulgar sua míope e tendenciosa visão como a verdade absoluta do século. 
            Minha opinião sobre o jornalismo que aqui se faz tem embasamento, e os textos do senhor Bortolotti me vêm bem a calhar na prova de minha tese. Diria eu a ele: - senhor Bortolotti, não dê carne a gato que o gato vem e come...! Agindo assim, como porta-voz desse governo de canalhas, tornar-se-á um canalha. Aliás, o sujeito para aprovar canalhices e ter-lhes simpatia há de ser, desde as fraldas, um canalha. Pois é isso mesmo o que quero dizer; não estou insinuando: - há fortes indícios de que o senhor Bortolotti seja um rotundo e espesso canalha.
            Dizia o Nelson que hoje em dia é muito fácil ser canalha. Por exemplo, para se fazer uma péssima medicina pública não é necessário maus médicos. Para fazer e oferecer uma péssima medicina pública é necessário, apenas e tão-somente, um governo de canalhas. E sabe por que, senhor Bortolotti? Porque a medicina não se resume ao médico, à pessoa do médico, à atividade do médico, embora este tenha papel angular naquela. A medicina é um conjunto de ações que visam um resultado pretendido. O médico executa muitas dessas ações, mas sua atividade depende diretamente dos recursos disponíveis. Tenha um infarto a bordo de um jato sobre o Atlântico e, se sobreviver, entenderá o que digo.
            Já a qualidade do jornalismo que se faz em determinado jornal não necessariamente dependerá de um conjunto de ações concatenadas e ordenadas. O jornalismo não pretende um resultado dentro de uma escala axiológica. Sua função é meramente informar. Governos não têm a função precípua de informar, exceto quando falam pela boca de canalhas a serviço da mentira. No Brasil, todos sabem, os governos não dizem a verdade. O povo teme o governo, como é bem típico do subdesenvolvimento, e justamente porque, quando fala o governo, boa coisa é que não é. Em países de população educada o governo teme o povo, justamente o oposto do que acontece por essas desafortunadas plagas. Naqueles países o governo é obrigado a ouvir a voz do povo sob pena de seus elementos amargarem, dali em diante, o ostracismo vitalício. 
             O jornalismo de má qualidade resulta da atividade tendenciosa e/ou superficial daqueles que informam. Eis aí as duas características marcantes do jornalismo local: - tendenciosidade e superficialidade. As conseqüências do mau jornalismo podem ser desastrosas ou inócuas, a depender da qualidade do leitor. O leitor preparado fareja a podridão do jornalismo marrom. O leitor alinhado à mentira que o jornalista escreve dá vivas de satisfação. Os demais, a arraia miúda, a plebe, nem lê, e, se lê, não entende. No caso do falacioso “Mais Médicos”, o tempo, senhor absoluto da verdade, em breve demonstrará, pela boca e testemunho daqueles pobres brasileiros a quem o programa é dirigido, onde ela, a verdade, está. Provavelmente os que fazem o jornalismo ideológico chapa branca, como o senhor Bortolotti, não permitirão que fale em suas colunas a boca do povo. Os humildes não entendem pelas letras, mas pelas dores e provações. Vê-se, então, que é pouco provável que as consequências da mentira jornalística sejam, de fato, catastróficas, ao passo que as da má medicina pública traduzem-se em perdas de dignidade, felicidade e vidas humanas. Daí porque, em que pese meu pavor à figura desse pernicioso "informador", nem atenção ele merece. O antídoto à sua peçonha é o desprezo.
            Uma medicina pública de péssima qualidade não se faz com um ou outro médico imprestável, discípulo de Josef Mengele, o anjo da morte, senhor Bortolotti. Como se vê, ao governo brasileiro está bem mais adequada a comparação. Pela irresponsabilidade deste governo é que morrem os doentes em filas, ou sem medicamentos, ou sem vagas em hospitais. A esmagadora maioria dos médicos brasileiros, ao contrário do que diz o senhor, ama o ser humano e se condói de seu crônico sofrimento. Sem ser piegas, o médico brasileiro é um imitador, um plagiador nato. Por beber na fonte de mestres admiráveis, pretende imitá-los no saber, na cultura, no humanismo, na infindável busca pela perfeição que nunca alcança. O médico brasileiro, dizia o grande pediatra Alberto Lima de Sousa, é o melhor do mundo porquanto é capaz, muitas vezes, de fazer diagnósticos usando somente a básica Semiologia e a Clínica Médica. 
           Entretanto, o doente desidratado só pode ser tratado, senhor Bortolotti, se houver água potável ou soluções endovenosas e seu aparato para injeção. Pense nisso à próxima vez que pensar em escrever ou insinuar suas asneiras.