segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Vá morrer pra lá!...

               Não perco a esperança: - alguém há de me dar notícias do meu amigo Sérgio Moura. E não somente uma notícia, uma vaga e inconsistente notícia. Nem será uma má notícia, que essas correm mais que o vento. Se demora, má é que não será. 
               Pois demora a me chegar uma notícia do Moura. Acaba de me ocorrer que demoras não muito demoradas podem significar uma morte "oculta". Não sabem o que é uma "morte oculta"? Bem, já comentamos sobre a morte simbólica. Esta o Sérgio Moura já morreu incontáveis vezes. Para os que não lembram ou não estão a acompanhar, faço uma suma. É o seguinte.
               Todo ano, entra ano e sai ano, o nosso Sérgio se esconde ao dia de comemoração de seu natalício. A ninguém quer ver, com ninguém quer falar; não lhe telefonem, não lhe enviem mensagens de congratulações, e muito menos lhe desejem "muitos anos de vida". Enfim, o homem vive, assim, uma morte. Viver uma morte não é coisa que se faça com facilidade. Se é verdade o que disse o Pessoa, que "morrer é apenas não ser visto", morre o Sérgio Moura no 15 de novembro e a cada 15 de novembro. Sabe-se lá quantas vezes já morreu o meu amigo.
               Presumo que meus raríssimos leitores tenham entendido o résumé. Se não entenderam, paciência. Por exemplo, este ano fiz o que o meu querido Sérgio Moura quer que se faça ao dia de comemoração de seu natalício. Que fiz? Resposta: - absolutamente nada. Sim, não lhe telefonei, não me utilizei de qualquer tipo de mídia para lhe enviar uma mensagem, não lhe incomodei. Se estiver vivo, se ainda for uma alma vivente e estiver a ler estas humildes e resignadas linhas, saberá o meu amigo que respeitei o seu desejo, fiz a sua vontade. Aos mortos pelo menos o respeito.
               (Aprendi isso recentemente em França. Assumo: - gosto de cemitérios. E fomos, Bella e eu – ela quase à força, eu por prazer –, a visitar o Père Lachaise. Lá chegando, sentei-me à borda de uma pobre laje, dentre as muitas que estão à beira de seus caminhos, para resfolegar. Eis que o segurança, um homem negro e sisudo, chegou-se a mim e, falando em inglês, admoestou-me: -"Senhor, levante-se, por favor! Há um ser humano aí"!...)
               Voltemos ao que seja a "morte oculta". A morte "oculta" surpreende o sujeito que está a experimentar a morte simbólica. O sujeito se trancafia a fim de "curtir" esta e acaba morrendo de fato e de vera, muitas vezes por atentado contra si mesmo. Vai ser encontrado três ou quatro dias depois em avançado estado de putrefação, coitado... Quero crer que não foi o que ocorreu ao meu querido Sérgio Moura, até porque tenho para ele um recado de nosso amigo Asclépio.
               O caso é que escreveu-me o Asclépio comentando sobre um de meus textos. Ao final, rogou-me: -"Abraços e lembranças ao Sérgio Moura". Respondi-lhe agradecendo o comentário e interpus: -"Acho que o Sérgio Moura não sobreviveu ao seu aniversário"... Eis aí como me sentia ao dar a resposta a meu amigo Asclépio, hoje pela manhã. 
               Olhando há pouco o histórico das chamadas que recebi ao longo do dia, deparo-me com uma surpresa: - havia uma chamada do Sérgio Moura. Seriam quinze minutos antes do meio-dia, hora em que uma operação me retinha no bloco cirúrgico. Ora, se o número do telefone portátil de meu amigo constava em minhas chamadas, das duas uma: – ou ligavam-me através dele para me participar de sua morte até então "oculta"; ou era o próprio Sérgio ressurgido de sua última morte simbólica. 
               Paralisado ante a possibilidade do pior, olhava agora para o telefone como se ele representasse uma janela aberta para o infinito. Relutava em fazer a chamada. Antes disquei para Bella, para o Tomás, para o Padilha... e nada de coragem de ligar para o Moura. Num ímpeto, saco do aparelho e deslizo o dedo sobre o bicho. O toque de chamada apita uma... duas... três vezes... Quando a quarta estava para soar, ouço a voz inconfundível: -"Diga aí, rapaz"...! Era o Sérgio Moura em carne e osso! Que alívio senti! Está vivo o homem! 
               E o mais intrigante, mas não menos esperado: - ele não demonstrou o mínimo aborrecimento por eu não lhe ter procurado ao dia 15 de novembro, momento em que, para todos os efeitos, vivia sua morte simbólica. Assim, claro ficou que o recém-aniversariante gosta de morrer em paz e assim há de o querer para o resto da vida. Até que venha a morte mortal dos que descem à tumba encimada por pesada laje, em que não se devem sentar os que não têm respeito pela morte alheia, real ou simbólica...
               Ainda assim, e com todo respeito ao querer de meu amigo, só me resta fazer-lhe uma última recomendação e para encerrar de vez esse já tão maçante tema: Sérgio Moura, vá morrer pra lá!...