quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Duas justiças e inúmeras adesões

               Estão dizendo aí na imprensa que mandaram exumar o corpo do Jango. O homem foi sepultado em São Borja e estão trazendo-lhe os restos mortais para Brasília onde os inumarão novamente, desta vez com honras de chefe de estado. O objetivo da operação é, ao que parece, reparar uma injustiça e, talvez, esclarecer um assassinato. Jango teria sido envenenado pelos militares após a tomada do poder. Bem se vê que há ainda muita água pra rolar sob essa ponte. Os peritos vão se debruçar sobre seus despojos para tentar dirimir qualquer dúvida sobre a causa de sua morte. Há aí uns bons panos pras mangas das matérias jornalísticas e das discussões em plenários, com direito a frases de efeito e retórica rebuscada e falsa.
               O que causa uma certa estranheza na matéria jornalística que trata da exumação e investigação da morte do ex-presidente, e isso tem sido cada vez mais comum em matérias jornalísticas, é que ela empresta ao fato uma suspeição suspeita. Explica-se. É justamente esse o toque de efeito que instigará os debates. Ora, há uma explicação histórica para o golpe militar de '64 qual seja, a ameaça de implantação de uma ditadura comunista no país. Pelo menos é o que dizem os do lado de lá. Os do lado de cá, que agora estão a gozar das delícias e possibilidades do poder, nada alegam, exceto as torturas de que foram vítimas. A Revolução os teria perseguido e torturado, e a alguns até matado, por se oporem a ela de uma forma ou de outra. Sem entrar no mérito, e não esquecendo que matou-se de um lado e de outro, o caso é que os do lado de cá trabalham para fazer justiça ao presidente enterrado como um qualquer. Seria a reparação de uma injustiça cívica. O diabo vai ser se descobrirem que envenenaram de fato o homem. A quem vão prender?
               Coincidentemente estamos na véspera da "comemoração" dos 124 anos da proclamação da República no Brasil. Conta o Laurentino Gomes em seu "1889" que Dom Pedro II, a Imperatriz e toda a casa imperial foram literalmente expulsos do país à maneira mais humilhante possível após o fato. Não houve uma única alma que se tenha posto entre os golpistas e o governo de Sua Majestade. Não houve luta, não houve comoção, não houve nada de anormal nem contundente ao dia 15 de novembro de 1889. E mais. A família Imperial, convidada a deixar o país o mais rápido possível, o deixou mais rápido ainda do que o inicialmente estipulado. Marcada a partida para o dia seguinte, às 2 da tarde, o já então ex-Imperador e os seus foram acordados na madrugada de 16 e levados às pressas para o navio onde esperariam os netos que ainda desciam a serra para com eles partirem. A desculpa: - evitar tumulto por parte de republicanos e monarquistas à partida dos reis. Até aí tudo bem. Golpes servem a maltratar os depostos e, às vezes, a tirar-lhes a vida, como se suspeita tenha havido com o senhor João Goulart.
               Quando morreu o ex-Imperador no exílio em França, recebeu, por parte do governo francês, honras de Chefe de Estado e vieram enterrar-lhe os ossos próximo à sua Teresa Cristina em Portugal. As exéquias francesas irritaram os republicanos de cá, por certo enciumados. Por aqui trataram de mudar os nomes das ruas, das praças, das escolas e tudo o mais que lembrasse o império e a família imperial. Queriam apagar todo e qualquer vestígio do governo anterior. Somente em 1921 trouxeram os restos mortais do monarca e da Imperatriz a repousar em solo pátrio, como ele sempre manifestou querer. Vê-se que Jango e D. Pedro II tiveram fim político semelhante.  
               Hoje, em sua coluna do jornal O Povo, o excelente jornalista Fábio Campos escreve sobre um vício, mais um dentre tantos, da política e dos políticos brasileiros: - apagar de vez o que fizeram de bom os antecessores. Entra gestor e sai gestor, entra político e sai político, e sempre é a mesma coisa. Faz-se de tudo, e geralmente com grande sucesso, para destruir os feitos de quem o precedeu. Se não isso, faz-se pior: - apodera-se do legado realizado como se de sua autoria fosse. E mais: - nisso não há um único e mísero santo. Todos, sem exceção, praticam e seguem praticando essa vergonhosa fraude, esse verdadeiro estelionato sobre as realizações alheias. Para que destruir o que se fez de bom quando se pode amealhar o feito como seu e ainda colher os dividendos? Burros foram os recém "empossados" republicanos de cem anos atrás. 
               Há mais. Segundo o Fábio Campos, ou melhor, segundo o Laurentino Gomes, à medida que a república se "instalava", crescia o número de "adesões" à nova forma de governo. Uns poucos descontentes pipocaram aqui e ali, mas nada significativo resultou. A maior reação contra a república partiu da província da Bahia, onde o general Hermes da Fonseca, seu comandante de Armas, se dizia fiel ao Imperador. Aquietou-se quando soube que o chefe da conspiração era o seu irmão, o Marechal Deodoro. Ou seja, se agora é a república, que venha a república ou o que quer que seja. Sendo ela inevitável – que, a propósito, foi o que pareceu ao próprio marechal –, que a louvemos e a bem recebamos. A mesmíssima coisa acontece hoje às raposas da política. Basta que se veja como o empresariado, ou pelo menos boa parte dele, cedeu aos encantos de nossos últimos governos "de esquerda". Ora, todos lutam para se inserir e prosperar na nova ordem, já que ela é, aparentemente, inevitável. As empresas, que são a prova mais contundente de uma economia capitalista, podem, sim, sobreviver e até muito lucrar em regime "comunista". A razão disso é que, na verdade e de fato, comunista mesmo o regime não é. 
               Assim, enquanto hoje se luta uma lutinha boba para "fazer justiça" ao ex-presidente João Goulart, justiça já se fez há muito a Dom Pedro II. Uma pena que essas "justiças" se façam somente após a morte dos injustiçados , quando participação nenhuma têm mais no que ocorre debaixo do sol. Hoje, também, seguem a passos largos as adesões aos novos governantes e seus grupos, sejam eles quem forem e o que quer tenham intenção de fazer. O que importa é fazer parte do jogo, da "panela", do caldo que compõe aqueles que controlam os orçamentos e as decisões, enquanto uns poucos abestados ficam a berrar seu idealismo inútil e defendendo o indefensável. Deviam era ter mais o que fazer.