segunda-feira, 25 de novembro de 2013

CICCIOLINA EM ANÁGUAS

           Dona Guilhermina tinha 86 anos. Chegou-me ao consultório para um check-up. Uma das filhas, que eu operara anos antes, me pedira para examiná-la já que temia por sua saúde. A velha senhora, ao que parecia, nunca fora a médico. Assim, ela e uma irmã mais velha vieram juntas com a mãe para uma entrevista comigo.
            Quando adentraram o consultório, percebi impressionado que a mãe, ainda que exibisse cabelos brancos como neve, parecia de uma jovialidade e firmeza que as filhas nem de longe mostravam. Dir-se-ia ser a mãe mais jovem que as filhas, que se mostravam bem mais “passadas”. Dona Guilhermina tinha a pele bem branca e suave, os cabelos arrumados graciosamente num ondulado delicado. Na face quase não tinha linhas de expressão. As mãos eram bem cuidadas e quase sem rugas. Os olhos eram penetrantes e expressivos, bem azuis, e irradiavam uma determinação e brilho desconcertantes. Ela tivera outros onze filhos, quase todos portadores de alguma doença mais ou menos grave, em algum momento de suas vidas. Ela mesma nunca estivera doente ou internada em hospital. Todos os seus partos haviam sido normais. Não usava medicamento algum. Dormia e se alimentava bem. Tudo isso me foi relatado por ambas as filhas que se alternavam no relato, ao mesmo tempo em que repreendiam a mãe por tanto desprezo pela própria saúde.
            E desciam a carga. Apesar de se alimentar bem, diziam, ela comia em demasia e exagerava no uso do sal; não fazia questão de evitar doces, apesar de ter uma irmã diabética. Há um mês queixara-se de opressão no peito e até o momento não fizera exame algum; era irrequieta e não se comportava como uma pessoa idosa.
            Dona Guilhermina ouvia as filhas em silêncio, olhando para uma e para a outra alternadamente à medida que falavam, com os braços cruzados sobre o peito. Eu, então, pedi que as filhas silenciassem e deixassem a mãe falar, perguntando o que ela achava de tudo aquilo e se estava sentido algo, particularmente alguma dor no peito. A velha e imponente senhora descruzou os braços e começou o relato mais impressionante e firme que eu jamais ouvira. A voz era potente e equilibrada.
            “Agora vocês calem a boca que eu vou falar. Eu não sei o que estou fazendo aqui. Eu nada sinto. Melhor dizendo, sinto-me ótima, melhor que vocês duas juntas”. Fez uma breve pausa e continuou: -“Sinto-me em meu pleno vigor físico” – e fazia muques com ambos os braços – “e sou capaz de ainda trabalhar as mais de doze a quinze horas por dia que estava acostumada a trabalhar. A opressão que sinto é angústia, suas bestas. Perdi o meu hotel e o governo, esse safado, com esses planos econômicos de merda só prejudica a quem trabalha sério. Trabalhei 40 anos em meu hotel e agora o perdi.” Olhou para mim e confessou: “Estou morando na casa dessa aqui” – e apontou uma das filhas – “de favor. Ela pensa que eu não sei, mas fique sabendo” – e virou-se para a filha com quem morava – “que sei que seu marido lá não me quer. Nunca precisei me escorar em ninguém e não vai ser agora que vou começar. Minha vontade é arrumar as minhas trouxas e ir embora. Me viro sozinha. Tenho força pra trabalhar, viu?” Nesse momento não conseguia segurar as lágrimas. Não admitia dó. Tinha orgulho de si mesma e de quem fora. Julgava lucidamente não ter deixado de ser quem era. Ela era, toda ela, um imenso orgulho ferido, uma dignidade ameaçada, um baluarte incompreendido.
            Examinei-a detalhadamente e nada de anormal encontrei. Ela era, até ali, um poço profundo de boa saúde e fortaleza do alto de seus 86 anos. Enquanto a examinava tirava brincadeiras com ela e ela relaxou e mostrou um apuradíssimo senso de humor. Àquelas alturas já ria e contava causos que protagonizara em sua vida de proprietária de hotel. Solicitei-lhe exames básicos e ela prometeu me trazer tão logo estivessem prontos. As filhas, agora mais tranqüilas, tentavam encerrar a consulta ao perceber que todos os procedimentos já haviam sido concluídos. Ela, por sua vez, falava e gracejava. Uma das filhas se retirou do consultório em direção à saída e a outra insistia a que ela também saísse.
            Ela então veio, me abraçou, e sussurrando ao meu ouvido, cochichou: -“Você não vai acreditar, meu filho, mas eu ainda tenho desejo!” Eu, fazendo-me de desentendido e não acreditando no que ouvia, fiz espanto: -“Desejo, dona Guilhermina??” E ela: -“De homem, doutor!” Sem conseguir me conter, caí na risada. Ela virou-se e já dava dois passos em direção à porta quando parou, voltou-se para mim e, aproximando-se, disse-me ao ouvido: -“O senhor nem imagina, doutor, mas vou lhe contar: - eu ainda me masturbo!” E saiu às gargalhadas e vaiando a platéia como se faz aqui no Ceará.

Fernando Cavalcanti, 01.02.2011