sábado, 23 de novembro de 2013

Sim: - "no longo prazo todos estaremos mortos"

               O sujeito, hoje em dia, deve estar mais atento do que eunuco de harém. Sim, porque as investidas são diárias e horárias. Somente se estará livre dos assédios à hora em que se dorme. Tempos atrás uma senhora, mãe de uma amiga que se queixava de insônia, aconselhou a filha nos seguintes termos: -"A gente só é feliz enquanto dorme"...
               Quererão saber a que me refiro, e direi. Trata-se da propaganda, essa feroz devoradora de mentes do mundo contemporâneo. Outro dia falei do Josef Goebbels, talvez o maior manipulador mental que já existiu. Goebbels era o ministro da propaganda nazista. Vejam que o regime criou o inusitado: - um ministério da propaganda. Teria lá seus escritórios em edifício próprio e seu pessoal de expediente a estudar o funcionamento dos processos mentais humanos. Seriam psicólogos e neurólogos empenhados em atingir um fim: - controlar o pensamento e a vontade do povo alemão, induzindo-o a pensar como queria o regime. 
               Ligo a TV para assistir a qualquer programa enquanto almoço. Como se diz por aqui, caio na besteira de mudar o canal para ver o que se passa na rede. Se não me engano, houve um apagão em parte da cidade hoje pela manhã. Talvez descobrisse suas causas e desdobramentos nalgum telejornal local. O trânsito estava um inferno, talvez por conta da pane em vários semáforos. Em vez disso, aparece um sujeito na tela, a logomarca do Santander ao fundo. Com ar grave, começa: -"No longo prazo"... e para.
               Pausa... 
               Demora-se ainda a pausa... 
               Os poucos segundos parecem uma eternidade... 
               Durante esse lapso de tempo, mentalmente completei a frase: - ... "todos estaremos mortos". Quem a disse foi o economista John Maynard Keynes, referindo-se a investimentos no mercado financeiro. Mas o que o âncora da propaganda diz, encerrado o suspense e seu efeito já a agir, é justamente o oposto. Ele diz, agora um amplo sorriso estampado nas fuças e já comemorando: -"...todos estaremos vivos"!! E então inicia-se a idéia que a matéria publicitária pretende vender: - planos de previdência privada. 
               Vejam que a intenção é vender uma idéia para, após, vender um produto e lucrar. Nada contra o lucro. Sou pela livre iniciativa. Tenho ojeriza ao comunismo. (O Nelson dizia que a liberdade é mais importante do que o pão.) Justamente por esse excesso de liberdade é que se deve estar atento. Se estão querendo lucrar em cima de você, que pelo menos seja porque você vê, de fato, vantagens também para você mesmo. Não preguemos a relação perde-ganha, que essa é do feitio dos masoquistas. A relação mais sadia é a do ganha-ganha. 
               O problema é que o capitalismo brasileiro – meu amigo Danúzio alcunhou o capitalismo de "capetalismo" – nasceu, cresceu e se estabeleceu baseado na relação ganha-perde. Alie-se a isso o forte elitismo e preconceito de nossa burguesia e temos uma das causas do ódio que ora grassa por nosso rincão. Vejam que o "capetalismo" a que meu amigo se refere é infinitamente menos diabólico que o comunismo totalitário e assassino que ele prega. (Ele diria, lendo essas linhas, que não prega totalitarismo nenhum, nem incita a que assassinem ninguém. Parece que não sabe sobre quais bases o comunismo foi fundado, coitado... Ilude-se porque assim o quer, ele e outros "progressistas" endinheirados e "intelectualizados".) 
               Mas... voltemos à propaganda. Afinal, estaremos ou não mortos no longo prazo? A propaganda tenta induzir o telespectador a pensar que ele estará, sim, vivinho da silva no futuro para receber de volta o dinheiro que hoje colocará em seu plano de previdência privada. Pergunto: - estará mesmo? Resposta: - ninguém sabe. Ou melhor, sabe, sim. Dependendo de quão longo é o tal longo prazo, a resposta é clara: - no longo prazo, longo prazo mesmo, todos, sem exceção, estaremos mortos. 
               A verdade é que guardar para o futuro faz bem, desde que não se deixe de fazer o que se deve e se quer fazer no presente. Deixar de fazer hoje para somente fazer no futuro parece ser de uma insensatez enorme. Por outro lado, fazer tudo agora sem guardar um naco que bem servirá na frente pode significar outra sandice equivalente à primeira. Donde se conclui que há que se buscar o equilíbrio. A propaganda é enganosa, mas não completamente enganosa. A propaganda é verdadeira, mas não completamente verdadeira. 
               Nada que seja incompletamente verdade é plena verdade. Tudo que é parcialmente mentira é inteira mentira. A propaganda do Santander é, portanto, uma deslavada e hedionda mentira. 
               (Em seguida entrou a propaganda do Partido Progressista, do padre de Sobral que é deputado federal. Ora, o termo "progressista" é utilizado pelos comunistas para expressar sua linha de ação voltada para o "progresso". Para eles o "progresso" é, nada mais, nada menos, que sua "democracia", uma democracia de verdade, onde o povo de fato governa, diferente da democracia "capitalista", para eles uma farsa. Ocorre que governos comunistas não são dados à democracia. É só olhar os que ainda vigem no mundo e estudar os que já sucumbiram. Também não levei a sério a propaganda do partido do padre. A propósito, o padre de Sobral não seria a reencarnação do padre de passeata do Nelson?)