sábado, 16 de novembro de 2013

A intimidade da gratidão

               Adentrei a recepção do prédio e a nova recepcionista educadamente me chamou. É uma moça de seus trinta e muitos anos, penso eu. Sempre que passo ela me cumprimenta com sua voz altissonante: -“Bom dia, doutor!” Mesmo que seja eu o primeiro a cumprimentar, e mesmo na presença de várias pessoas, ela não deixa por menos: -“Bom dia, doutor!” Às vezes todas as faces se voltam para mim, já que cumprimento assim só se vê em quartel. Seria uma continência da vida civil. Ela me passa uma autoridade que não possuo. Hoje ela queria que me aproximasse a fim de me fazer uma consulta.
Consultas médicas ao meio da via pública, ou no toillete, ou no restaurante, ou na festa de casamento são uma constante, uma rotina. Querem o diagnóstico na bucha, sem hesitações, sem meias-voltas. Diz-se o sintoma, dá-se o veredicto. É claro que não há confiança nenhuma por parte do paciente. Ele já vai dando o tratamento: -“Não é melhor tomar tal remédio, não?” Se sabe o que o aflige e o respectivo tratamento, não há por que se aconselhar. Por que pergunta? Sabe-se lá. Ou melhor, sabe-se, sim: - não há a menor confiança e credibilidade, repito. Perguntar e discordar da resposta já são a repreensão: como me responde uma coisa dessas sem me examinar, seu imbecil!
               Hoje a confusão está tão grande que o doente vai ao especialista que lhe dá na telha. Ou o que o parente mais hipocondríaco da família acha ser o mais adequado ao caso. E por aí vai ao lixo a reputação do clínico geral. Todas as vezes que indico um clínico geral percebo um desdém acintoso. Ninguém mais quer ir ao clínico. Clínico não goza de boa reputação entre os leigos. Também pudera. A maioria dos clínicos dá diagnósticos como se estivesse à privada espremendo cravos, ou à fila do cinema chupando picolé Pardal.
               Em que pese tudo isso, posso garantir: o médico, o verdadeiro médico, é o clínico. Não esse da fila do cinema ou o da sentina, mas o clínico, à moda Sérgio Gomes de Matos, à moda Francisco Heli Lima. Esses não dão palpites ao sereno. O sujeito que não for ao seu consultório não vai ter o prazer de ser consultado por o clínico, o médico. Não sei se me entendem.
               A instituição da confissão já foi mais viçosa. O sujeito se aconselhava com o padre. De tudo sabia o padre. Hoje já não se usa mais o confessar-se como antigamente. Pois bem. O sujeito vai a o clínico e sai de lá mais leve que uma bola de algodão. É provável que suas somatizações se abrandem e sua suposta doença orgânica não exista. Após uma consulta a o clínico, não há mais padre nem psicólogo.
​    Volto à recepcionista. Disse-me lá o que a afligia e a orientei sobre como conseguir uma consulta com o especialista. E querem saber? Ficou muitíssimo agradecida. Entendeu que considerei seu quadro relevante o bastante a necessitar de uma consulta com o clínico. Ficou tão agradecida que se despediu de mim com um beijo, desses que se dão no ar com a encenação dos lábios unidos a pronunciar um splash. Vejam como somos os brasileiros. Vamos da formalidade respeitosa à intimidade da gratidão após dois minutos de prosa. A intimidade da gratidão implica um respeito ainda maior por parte de quem se sente ajudado, de quem se sente amparado e acolhido, mesmo que não seja você o elemento que vai trazer a solução do problema.
​   Horas mais tarde, ao interfone, ela me informava: -“Doutor Fernando? Meu amor, chegou uma encomenda para o senhor cá embaixo. Posso mandar subir?” É desconcertante a intimidade da gratidão. Para os que só vêem segundas intenções em tudo, fica o brasileiríssimo exemplo.

Fernando Cavalcanti, 09.02.2010