quarta-feira, 23 de março de 2011

Uma angústia que envergonha

Meu amigo Frederico Arnaud é homem sério. Sem a sisudez dos inacessíveis, é homem sério.
Há uma marca em Frederico Arnaud – não busca exaltação pessoal. O que há mais e demais no mundo – a busca incessante da exaltação pessoal. É raro entre os humanos encontrar quem lute por uma causa sem buscar, no fundo do coração, onde somente o Senhor pode ver, a exaltação de si mesmo.
Diz o Senhor a Lúcifer e a respeito de Lúcifer, o querubim perfeito, ungido e de elevado posto – abaixo apenas de Cristo nas hostes Celestiais – após sua rebelião: “Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor...” Quem, dentre nós, não se pega vez ou outra buscando exaltação pessoal?
Queremos aparecer, estar nas bocas, ser notados. Falem mal de mim, mas falem, diz o chavão. E fazemos pactos e acordos e conchavos com quem quer que seja para estarmos por cima e exaltar a si próprios. Estar no círculo dos importantes, ser importante, eis o que queremos.
Escrevi há dias sobre a entrevista que fez o Michael Moore com o senhor Tony Benn, ex-membro do Parlamento Britânico (Nossa desejada guerra, 24.02.2011). O experiente político diz que para subjugar um povo usam-se dois estratagemas: assustam-no e o humilham. Assustar e humilhar um povo o mantém cativo.
Há dois dias Fred escreveu um artigo para o jornal Diário do Nordeste onde expõe toda a sua angústia sobre o estado em que se encontram as emergências dos hospitais terciários de nossa capital. Mais – demonstra claramente sua angústia ante o estado de miséria em que se encontram os doentes que para lá se dirigem e que lá estão. E denuncia: visitas aos hospitais e reuniões com o Ministério Público, Assembléia Legislativa do Estado do Ceará, Câmara dos Vereadores do Município de Fortaleza, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Sindicatos e Conselhos de classe nada resolveram, nada solucionaram. O caos e a miséria persistem.
Ora, todos esses importantes e imponentes senhores têm poder. Ou não? A causa é justa e meritória. As soluções foram apontadas. Sabe-se o que tem de ser feito. Por que não fazem o que tem de ser feito? Por que não aplicam a lei? Se não há ainda a lei, por que não a criam?
Há pelo menos quatro deputados desse Estado e pelo menos um vereador dessa cidade que são âncoras de programas televisivos de larga audiência. Aparecem diariamente para o povo e se escandalizam diariamente com a violência, com o espetáculo das emergências dos hospitais que visitaram e sobre os quais debateram enquanto políticos e legisladores, e mostram-se embasbacados com tudo isso. Aparecem. São notados. Fazem discursos lindos. Na televisão mostram-se pletóricos e iracundos quanto a esse estado de coisas. Nada solucionaram, porém, em que pese todo o poder que têm.
O Ministério Público fez o quê? Deve ter feito algo, mas na prática o que fez não redundou em nada, não garantiu a dignidade de ninguém, não fez cumprir as leis e as normas. A OAB, os Sindicatos e os Conselhos de classe, notadamente o Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará (CREMEC), nada fizeram. O CREMEC fiscaliza o exercício da profissão médica? Não tem fiscalizado. Se fiscalizasse tomaria uma atitude radical, que é o que o problema exige.
A sensação que nos dá é que a coisa toda é feita para parecer que se faz algo, mas sem haver mudanças de impacto. Tudo na base do faz-de-conta. Mostra-se – é preciso mostrar, senão não se exaltam os egos – que se está “trabalhando” no problema, mas ninguém faz nada que resolva o problema. Aproveita-se para vender a idéia – uma idéia bem vendida pode ser a pior desgraça de um povo – de que o problema não é simples e que por isso não tem solução imediata. A sensação que nos dá é que os conchavos – entre eles – estão a vigorar e a mostrar a que vieram.
Frederico Arnaud deixa claro: o povo das emergências está assustado, humilhado e abatido de morte em sua auto-estima e amor próprio: “... idosos, crianças, homens e mulheres em corredores mal cheirosos, deitados em macas duras e frias, sem privacidade, sem direitos, sem carinho e sem amor. Sobrevivem entre os excrementos dos seus vizinhos. Muitos se consideram felizes por estarem ali.”   
Conclui o senhor Benn na entrevista, dizendo em verdade a antítese do que direi: um povo assustado, ignorante e humilhado é bem fácil governar.
A única coisa que discordo do que disse o Fred é: “a culpa é minha”. Aqui incluiu toda a classe médica envolvida com o atendimento desses pacientes. A culpa é de todos. Nossa também, mas principalmente dos que têm à mão o poder e, ao invés, desses pobres coitados debocham. Esses, sim, são os grandes culpados. Foram eleitos e são pagos para resolver problemas dessa natureza. São, acima de tudo, incompetentes.