sexta-feira, 4 de março de 2011

Paz e liberdade – ingredientes da felicidade

Perguntou-me hoje o meu amigo Ciro Ciarlini, no hospital, se eu achava que o dinheiro é fundamental para se ter felicidade.
            Nesses tempos de gurus e livros de auto-ajuda, do coaching e dos pastores digitais, das palestras budistas e espíritas para casas lotadas e em grandes auditórios, o que mais se tenta ensinar é como obter felicidade. Falam, falam, falam, e ninguém ouve; ou, se ouve, não aplica o que é ensinado. Ensinam, por exemplo, que o apego ao material só traz dissabores e sofrimento; que o ciúme é fonte de angústia e dor; que o ter não importa, o que importa é o ser; e por aí muitos vão enchendo os bolsos do dinheiro que dizem não ser importante.
Impossível é ensinar uma lição que não se aprendeu na prática. O que se faz fala tão alto que o que se diz ninguém escuta, diz o adágio. O inverso é mais verdadeiro ainda: o que se não faz fala tão alto que o que se diz para fazer ninguém escuta. Vejam a mordacidade do Falcão na letra de uma de suas músicas: dinheiro não é tudo, mas é cem por cento. Traduz bem na medida a hipocrisia desses que estão aí a tentar ensinar o povo.
O Ciro me perguntava se é possível ao pobre ser feliz. E lhe respondi: e ao rico também. É possível a um e a outro. Por que não seria? O dinheiro nada tem a ver com felicidade. Comumente se pensa que o dinheiro é necessário à alegria e à felicidade. Tal concepção é uma tolice sem tamanho. Outro dia, viajando por uma dessas estradas federais esburacadas, vi o que todos vêem. À beira da estrada mora gente pobre. Suas casinhas são feitas por Deus sabe quem. Ao lado há uma árvore frondosa cuja sombra provocante é um convite ao ócio e lazer. Pois bem. É isso mesmo o que faz o pobre que tem essa frondosa árvore como vizinho – põe sob a copa da árvore uma mesinha, umas cadeiras, uma fogueira; sobre a mesa distribui meia dúzia de copos de geléia de mocotó vazios. A garrafa de aguardente sai barato, e o frango assado sai de graça, escolhido do meio de sua criação pessoal. Chama os vizinhos pobretões e a farra vai até sabe-se lá quando. São felizes? Não tenho a mínima idéia, mas têm tudo para ser.   
Diz o Kiyosaki que o dinheiro gera problema quando em falta e quando em excesso. Na verdade o dinheiro causa problema como tudo aquilo que muito se deseja ter e não se consegue. Há coisa que faça sofrer mais do que o desejo incontrolável de ter uma montanha de dinheiro? O pobre da beira da estrada tem a mais absoluta certeza de que jamais terá algum dinheiro, mas é feliz com o que tem. Portanto, não sofre por querer o que julga impossível obter. Porque não quer, não sofre. Se quisesse sofreria. Simples assim.
Vê-se que dentre o pobre da cidade ou o pobre que se contamina com as idéias que vicejam nas cidades existem os que querem ter. Há os que são como o da beirada da estrada, mas cresce nas cidades aqueles que cobiçam, que sonham, que imaginam, e com isso cresce-lhes o sofrimento e a vontade de ter. Uma vontade não satisfeita é sempre uma fonte de infelicidade e tristeza. A historieta que conto abaixo é bem ilustrativa.
Certa vez um rico empresário viajando a beira-mar parou seu carro com tração nas quatro rodas à porta da casa de um humilde pescador. O pescador, deitado fora da casa na rede presa a duas árvores (esse pescador tinha duas e não uma árvore fora de casa), balançava-se e fumava um cigarro desses que se fazem comprando o papel e o fumo. Mais distante, à frente da casinha, a jangada do pescador secava ao sol. O empresário veio puxar conversa: - Aquela é vossa jangada? O pescador respondeu que sim. “O senhor pesca para si e para a família?”, continuou perguntando o empresário. “Sim, é o suficiente pra gente viver.”, respondeu o humilde homem. O empresário começou então a ensinar ao pescador como ele poderia fazer fortuna rapidamente: - Se o senhor sair a pegar bastante peixe para vender poderá comprar outras jangadas e colocar outros pescadores a pescar para o senhor. Em breve terá barcos e barcos que pescarão mais peixe ainda e o senhor ficará bem rico. O homem olhou para o empresário e perguntou: - E pra que tudo isso? Ele respondeu: - Ora, para o senhor ficar deitado aí em vossa rede despreocupadamente! O pescador então respondeu: - Mas eu já não estou aqui deitado despreocupadamente?!
Se o humilde pescador “comprasse” a idéia do rico empresário, iniciaria ali sua desgraça e seu sofrimento. Iria querer mais e mais dinheiro e nunca saberia quando parar de querer.
Ter qualquer coisa em excesso, ou nutrir demasiado amor pelo que se tem, é ainda um mais sério problema. Para ser feliz com o excesso é necessária certa dose de desprezo pelo objeto da posse. É preciso enganar a mente dizendo-lhe todos os dias: -“Esse objeto não me serve de nada. É só um meio e uma ferramenta para atingir meus objetivos” É como se não quisesse ter o que tem, ou que o que tem nada representasse. É como se lhe fosse fácil mudar as metas caso o meio de alcançá-las fosse perdido. O mesmo se faz com o excesso de dinheiro. Não se deve, contudo, no que tange ao dinheiro, fazer com ele peripécias e estripulias, posto que não aceitasse desaforos. Ainda assim é preciso a ele dizer todo dia: - Quem manda aqui sou eu!, a fim de estabelecer quem é o senhor e quem é o escravo. Faz-se, então, necessário, para quem tem excesso de dinheiro, um aprendizado contínuo sobre formas de pôr o dinheiro para trabalhar para seu dono. Quem trabalha? O escravo ou o senhor? Então, que o escravo trabalhe. Não se conseguirá que o escravo trabalhe enquanto o senhor não for senhor. O medo de perder é outro problema dos donos do excesso. Há que aprender a perder o medo de perder se quiser ser feliz com o excesso. Diz o Kiyosaki: você recebe o que você teme. Portanto, se tiver medo de perder, perderá, certo como dois e dois são quatro.   
A conclusão de tudo isso é que falta de dinheiro não traz infelicidade simplesmente porque não existe a falta de dinheiro; o que existe é o desejo insaciável de tê-lo mais, sempre mais. Acabando-se o desejo, acaba-se também o que faz sofrer. O que traz infelicidade é a falta de paz e liberdade. A paz é fruto das boas relações com os outros; a liberdade cresce na árvore que está no jardim da alma: dentro do próprio ser, com saúde afetiva, emocional e psíquica.
Respondi, então, ao meu amigo Ciro Ciarlini: é possível ser feliz sem o dinheiro, assim como é possível ser feliz sozinho. (O amigo está doido que eu case!)