quinta-feira, 3 de março de 2011

Nem Freud

Vocês não sabem da maior: Amorim reapareceu. Preciso confessar – perdera todas as esperanças de revê-lo um dia. O motivo é simples. O homem some quando está amando. É tudo muito fácil de entender. Deixem-me explicar.
            Amorim ama tanto e tão diversamente que a nova amada precisa ser mantida a uma distância segura de tudo e de todos. Entende-se. Amorim teme que a mais recente amada tome conhecimento de quem ele é de fato. Por isso some. Diria que o homem se traveste. Seria uma nova personagem, com novo temperamento, novo modo de falar, novo figurino, e até novas idéias. Não sei se me faço entender. E, assim, nesse palco particular onde se inicia seu novo relacionamento, Amorim é um novo homem. A amada estará prestes a conhecer a fundo o homem que ele quer de fato ser.
            O problema é que ele ainda não adquiriu, do alto de seus mais de cinqüenta, a maturidade suficiente para entender o que até minha sobrinha de sete já percebeu: por detrás da personagem há, imutável, a essência do verdadeiro homem, assim como por detrás do fantoche há o homem de carne e osso.
             O querido amigo é um tipo tão singular que merece análise mais acurada. Se ele quer ser alguém que não é, significa que o amigo não gosta de quem é; em outras palavras, não gosta de si mesmo. Tal possibilidade é indício ominoso – falta-lhe amor próprio, tem baixa auto-estima.
            Há ainda a possibilidade de ele preferir o relacionamento fechado com a amada por desejar dela toda a atenção e zelo que ela puder lhe dar. É tão carente de afetividade que dela demanda todo o seu tempo, toda a sua vida, todo o seu ser. A amada precisa nutrir por ele adoração e dependência afetiva completa, tal como ele nutre por ela. A vida a dois passa a ser um círculo muito fechado, estreito, quase um ponto, quase uma singularidade cósmica. Disso resulta o efeito colateral mais aberrante e danoso – o ciúme. Nem me perderei nos meandros, sótãos e porões do ciúme que é assunto a exigir tratados e mais tratados.
            Alguém certamente perguntará por que some tanto tempo o Amorim, já que relacionamentos firmados sobre tais alicerces ruem tão rápido quanto indubitavelmente. Simples – o homem os coleciona há anos. São tantos e tantos os casos e amores do Amorim que não lhe resta tempo para outra coisa. O homem está sempre às voltas com um rabo de saia e nós, seus amigos, até dele esquecemos tamanho o chá de sumiço que o homem toma. Pior do que ele só o Padilha, agarrado aos equipamentos de última geração que adquire. O que sei é que entre os dois, Amorim e Padilha, a parada é dura, cada um mais doido que o outro.