terça-feira, 15 de março de 2011

Terremoto, tsunami e doido varrido

Outro dia fui apresentado a um amigo de um amigo. Era um Cavalcante. O amigo nos apresentou e o sujeito foi logo me perguntando: -“Teu sobrenome é com ‘i’ ou com ‘e’?” Respondi: -“Com ‘i’.” Ele brincou: -“Então és dos pobres!” Rimos.
            Existem os Cavalcanti e os Cavalcante. Os com “i” se dizem os autênticos, os com “e” os ricos; os com “i” os descendentes de um italiano, um tal Felipe Cavalcanti, os com “e” alegam ser vítimas de erro do tabelião.
            Para complicar, há aqui no Ceará um Fernando Cavalcanti, que sou eu, e um Fernando Cavalcante, que não sou eu. Eu sou médico e ganho o suficiente, o outro é construtor e ganha muito; é o que acho, posso estar equivocado. Às vezes fazemos idéia errada a respeito dos outros e, quando se vai ver, nada do que se pensou é a verdade dos fatos. Conheci pessoas que ganhavam fortunas, mas que deviam fortunas ainda maiores. O dinheiro é um troço que testa a maneira como vemos e vivemos a vida.
            É comum que em famílias abastadas exista o ramo dos pobres. Não digamos que seja este o meu caso, que não sou pobre. Pobre é o assalariado do salário mínimo. Digamos que também é pobre quem gasta mais do que ganha. O assalariado do mínimo não tem como fazer o milagre de gastar menos do que ganha; por isso é pobre.  
            Conclui-se facilmente, desta minha profunda análise contabilista, que há os ricos e os que parecem ricos, e há os pobres e os que parecem pobres. Percebem? Acautele-se. Veja você, por exemplo. Você é realmente pobre ou só parece? Você é rico ou só arremeda uma suposta riqueza? Há os intermediários, que não são pobres nem ricos. É entre estes que estão os que parecem uma coisa ou outra.
            Diz o Kiyosaki que riqueza não se mede por quantidade de dinheiro, mas por quantidade de tempo. Ele diz o seguinte - que a quantidade de tempo em que você se mantém no mesmo padrão de vida sem trabalhar é a sua quantidade de riqueza. Por exemplo, se paro de trabalhar hoje e me mantenho no  mesmo padrão de vida por um ano, então sou “um ano” rico.
            Um padrão de vida elevado requer mais recursos e pode, eventualmente, tornar o sujeito pobre, de acordo com a definição do Kiyosaki, em apenas poucos meses ou poucos anos. Parece também claro que, se o indivíduo puser o dinheiro para “trabalhar”, o dinheiro vai crescer em quantidade em decorrência de seus investimentos. Assim, se o fluxo de caixa a partir de investimentos for contínuo, o sujeito pode passar a vida sem trabalhar, somente administrando-os. Vai empobrecer aquele que tem fortuna e compra todos os tipos de passivos, ou distribui o dinheiro entre os amigos do bar, ou torra tudo em outros desaforos ao vil metal. (Não é o metal que é vil. Esse é adjetivo para o bicho homem, que o metal não tem caráter.) É sobejamente conhecida a história do sujeito que ganhou colossal fortuna na loteria e em pouco tempo estava mais pobre do que antes.  
            O problema com os investimentos é a incerteza, principalmente no mercado acionário. (Desde o começo eu queria falar dos investimentos e das incertezas que os cercam, mas me perdi com a léria dos Cavalcante.) Algumas manchetes de hoje demonstram o que digo. Vejamos.
            Os principais contratos futuros de petróleo encerraram esta terça-feira (15) em forte queda no mercado internacional, após um novo incidente na planta nuclear de Fukushima. O temor do mercado é que haja um forte impacto por conta da demanda japonesa pela commodity, o terceiro maior consumidor mundial. (Infomoney)   
             Mais: Os principais índices acionários europeus registraram forte queda nesta terça-feira (15), em meio ao clima de aversão ao risco por conta do acidente nuclear em Fukushima. (Infomoney)
            Bem se vê que o indivíduo que compra e vende ações tem, antes de tudo, um distúrbio mental de extensão desconhecida. Converteu-se em senhor de seu dinheiro, desprezando-o tanto e de tal maneira que o expõe aos tsunamis e terremotos, eventos da natureza que ocorrem em todo o mundo e capazes de afetar o preço do pão ou das bananas, que por sinal seguem podres como carcaça de gato morto à beira da estrada. Com as notícias do reator o preço do petróleo despencou e quem tem ações de empresas que negociam ou exploram a commodity viram seus valores despencarem. O mais doido dos investidores não as venderá. Acredita nas ondas de Elliot e as venderá somente na alta de preços, seja em que tempo for.  
            Vejamos mais um pouco, um viés positivo da tragédia sobre o mercado: Segundo a Ágora, notícias dão conta de que as empresas siderúrgicas japonesas teriam sido afetadas na recente catástrofe. “A informação é de que algumas plantas das cinco maiores siderúrgicas japonesas teriam sido afetadas”. Os analistas lembram também que o Japão é o segundo maior produtor mundial de aço, tendo sido responsável por 8% da produção global no ano passado. O impacto positivo da tragédia para as empresas do setor de siderurgia derivaria exatamente desse peso que a indústria japonesa tem na produção da commodity. Na avaliação dos analistas, uma possível queda na produção de aço “pode resultar no desequilíbrio do mercado global, resultando em maior pressão altista do preço desta commodity no curto prazo”. O desempenho positivo das siderúrgicas brasileiras no pregão da véspera é atribuído exatamente a essas notícias. (Infomoney)
            O investidor do mercado de ações pode também ser um sádico, ou um oportunista, ou ainda o mesmo doido varrido que, desta feita, espera lucrar em menor prazo com o sacudir das placas e a destruição das siderúrgicas japonesas. Ela, a destruição, acabará por jogar para cima o preço do minério de ferro catapultando o preço das ações das empresas siderúrgicas.
            A conclusão a que se chega é uma só. Ninguém deseja terremotos nem tsunamis, mas com eles há quem enriqueça. Como no Brasil – ah! o Brasil! – se tem uma verdadeira aversão à riqueza e a quem enriquece, ainda que de forma lícita, os ricos eventuais das tragédias entrarão para o rol dos nossos “podres” de ricos. Como as bananas que tenho comprado. Paciência.
É possível também que tudo dê errado e o doido de pedra acabe sem um tostão. Ele não dará a mínima. É mesmo um doido varrido.