segunda-feira, 21 de março de 2011

Crack e álcool

Descobria-lhe o curativo com o auxílio de uma das meninas da enfermagem e lhe fazia várias  perguntas. Quando lhe perguntei se bebia, disse firme e convicto: -“Bebo não, doutor! Nem uma gota!” Então perguntei se fumava. Ele fuzilou, sem pudor: -“Cigarro não, doutor! Só crack! Só fumo crack! Pra quê mentir? Eu disse foi na frente do policial quando cheguei! Pra quê mentir? Num é verdade?” Levara um tiro no joelho. De fato, fora baleado nos dois joelhos, mas a ferida arterial fora no direito.
            Sábado fui ao Tocantins. Ainda que feliz e descarrado, limito um pilequinho ou outro quando à companhia de amigos. Não é seguro dividir mesa de bar com desconhecidos. Essa é uma regra de ouro cuja validade pude ver testada quando estava em Sobral. Dois “amigos”, bêbados a não mais valer, só não se pegaram no tapa porque outros “amigos” os impediram a muito custo. Dali a cinco minutos estavam aos beijos e abraços a se desculpar e se reconciliar. Não sei qual o desfecho final ao longo da noite, mas seguramente não há de ter sido dos melhores. Se até “amigos” se pegam sob efeito do álcool, imaginem-se desconhecidos!
            Há sujeitos que não sabem fazer uso recreativo do álcool, e os jovens estão mais propensos à utilização mais que além da conta da substância. Dirão aí que álcool é droga, e de fato é. Álcool causa uma lista incontável de doenças além da dependência química cujos resultados são devastadores. Tudo isso é amplamente conhecido e divulgado. Não façamos, portanto, apologia ao seu uso. Direi apenas – aprendi à beira dos 50 – que até para beber há que se ter maturidade. (Antes tarde do que nunca.) Minhas libações à verdura foram, senão catastróficas, repletas e rodeadas do ridículo e da vergonha ou falta dela, e seguidas devidamente do mal-estar que para sempre limitou seu uso. Feliz o homem que passa mal ao uso de uma droga. Jamais se aprofundará no labirinto descendente do vício.
            Outras regras de ouro aprendi para a ingestão eventual do álcool. Somente se deve usá-lo quando se está feliz, porque tristeza não combina com absolutamente nada, nem com aspirina. O álcool acentua o estado de espírito do indivíduo e, portanto, vai muitíssimo mal à pessoa triste, ou deprimida, ou em angústia. Em pessoas agressivas nem pensar, ainda que se conheçam aqueles que se transmutam de doces indivíduos em verdadeiros monstros quando sob efeito da libação alcoólica. Se assim são, deve-se informá-los para que se abstenham completamente. São aqueles que apresentam a síndrome descrita no romance de Robert Louis Stevenson – sóbrios, um poço de languidez; ébrios, assassinos ferozes.
            Abster-se de pilotar ou dirigir qualquer veículo que trafegue por terra, mar ou ar é a regra mais importante a ser obedecida por quem faz uso de álcool. No Tocantins, sentado a uma mesa cuja posição me oferecia uma visão panorâmica de todo o restaurante, vi-a ser quebrada por todos, exceto eu e uma senhora que de lá saiu com duas ou três tulipas de cerveja à cabeça conduzida por um táxi chamado por ela mesma. Os demais, enquanto lá permaneci, chegaram e partiram conduzindo seus carros.
Outra exceção notável foi um sujeito de barbas e bigodes que estava à mesa com outro sujeito e três outras distintas damas. Após partir o segundo com as mulheres, ele ainda tomou uma ou outra cerveja e saiu visivelmente embriagado. Desceu as escadas defronte ao bar sabe-se lá como e – pasmem! – subiu na motocicleta após pôr o capacete à cabeça. Alguém o ajudou a dar a ré no veículo para que pudesse passar entre os carros parados ao meio-fio e tomar o rumo da pista, já que a motocicleta estava sobre a calçada de pedestres. Saiu a toda velocidade e por uma fração de segundos pensei que fosse se estatelar nas árvores do passeio central. Não sei qual o desfecho final de sua noite – de fato já era quase dia – mas não há de ter sido muito bom. Se bom, pior ainda – haverá uma noite no futuro em que o mau desfecho o apanhará.
O crack é ilegal, o álcool é legal. O sujeito do crack é pobre e viciado. É o elo final de uma organização criminosa poderosa que não se combate com morros desocupados somente. O sujeito da moto e todos os bêbados condutores do Tocantins não são criminosos por ingerir álcool. São criminosos por conduzir embriagados seus veículos. Uma blitz do poder público em ambos os lados da pista defronte faria uma festa de multas e prisões. Por que não fez? Por que não faz? Os taxistas agradeceriam. As potenciais vítimas também. Economizar-se-iam milhões de reais em tratamento de traumatizados, seus dias de ausência no trabalho e em pensões de inválidos.
A alguém interessa “limpar” os morros sem agir em outros fronts. A alguém interessa suprimir as blitz. Ou será burrice e incompetência mesmo?