sexta-feira, 25 de março de 2011

Avó

http://www.youtube.com/watch?v=GaM8kQnJjY4

Pode haver um idoso imbecil aos 70, mas não haverá aos 90. Não é todo dia que se conhece alguém de 90 ou mais. Conheci alguns pessoalmente e garanto – são todos, sem exceção, pessoas notáveis. Sua característica mais marcante é a tranqüilidade e a paz que exalam. Nada temem. O tempo não mais lhes assusta, nem mais lhes apavora. São senhores do tempo. Sabem que o enganaram por toda a vida e estão calmos pela inexorabilidade do destino.
Deliciam-se ao encontrar um tolo como eu, que tudo pergunta e tudo quer saber. Mostram fotos, comendas, títulos, diplomas, reconhecimentos... Falam do Liceu, do francês, do latim, dos interventores, das quedas dos presidentes, da morte dos amigos e dos parentes... Tudo parece uma aventura que viveram, a aventura de suas vidas.  
A primeira pessoa assim que conheci foi minha bisavó, avó de minha mãe. Eu tinha uns 24 e já era pai de duas lindas crianças, seus tataranetos. Minha mãe perdera cedo seu pai e sua família dela se distanciou. Eis que um belo dia ela me liga e me convida a ir à casa de minha bisavó, que sequer eu supunha ainda viver, para seu aniversário. Foi o único contato que tivemos. Eram seus 99 anos. Corria o ano de 1985.
Enterrara 15 filhos e dois maridos. O primeiro marido, pai de minha mãe, morrera cedo, aos 39, de tuberculose. Era nas primeiras décadas do século XX e ela trabalhava num cartório que lhe pertencia. Tinha um único funcionário. Morto o marido chegou ao seu funcionário e lhe disse que, se quisesse continuar trabalhando ali, tinha de casar com ela porque senão ficaria “falada”. O homem não queria perder o emprego, nem ela queria ficar “falada”. Assim, casaram.
Conversei com ela alguns minutos. Era uma mulher firme e lúcida. Disse-me assim, quando lhe perguntei sobre a vida: -“Estou cansada de viver, meu filho. Todos os dias vejo o sol nascer e me pergunto quando partirei, se será naquele dia, ou quando será.” Quis saber por que e ela me explicou: -“Não conheço mais ninguém. Todos que conhecia morreram. Ninguém quer conhecer ou conversar com uma velha como eu. Além disso, que assunto poderia ter com alguém tão novo? Estou muito cansada.” Dali a poucos meses ela caiu, quebrou um osso da perna e morreu de pneumonia.
Sobre outras coisas falamos. Ela me causou uma impressão indelével e até hoje me pergunto por que não me levaram antes a conhecê-la. Ela era uma fonte inesgotável de sabedoria e pragmatismo pelo que pude avaliar, e eu me sentia um tolo ali, perto dela. Contudo, sentia uma vontade insaciável de lhe perguntar, de lhe ouvir fatos da vida, saber de seus momentos distantes no passado... O pouco que me relatou só foi possível por breve período. Afinal, era seu aniversário e outras pessoas iam e vinham.
Fui eu o culpado. Aos 24 o que somos? Idiotas, eis a verdade. Estamos interessados em enaltecer nossa vaidade e exercitar nosso impulso sexual. Pensamos em coisa menores e estamos empenhados em construir uma “carreira”. Eu não teria achado um dia sequer na semana para ir vê-la, como de fato não achei. Tive alguns meses de prazo e ponto final – ela encontrou o seu tão desejado repouso. Direi sem meias verdades: eu não tinha tempo para ela.
Poderia escrever muitas e muitas histórias sobre ela e sua rica vida. Em vez disso, eu estava ocupado com a minha própria vida. Poderia ter-lhe dado a mão numa viagem com ela a seu passado e com isso lhe proporcionar emoções revisitadas e revividas. Mas não. Não é isso que nos ensinam? Não é isso que querem que façamos? Por alguns dias estaríamos juntos numa experiência inigualável e inesquecível, para ela e para mim. Através dela teria conhecido meu avô paterno, seu filho, fatos de sua vida, quem era ele, o que fizera... Mas não. Estava envolvido demais com as tolices da faculdade, pensando no futuro, pensando em mim.
Eu poderia ter amado minha bisavó com todas as minhas forças, com todo o meu afeto, com todo o meu ser, a beber dela o néctar que acalma os bebês de leite. É o que eu era diante dela – um bebê de leite. Não o fiz. Deixei passar. Mas não esqueci. Nunca esqueço minhas insensatezes e falhas imperdoáveis, embora me as perdoe para seguir vivendo. Como poderia seguir se não o fizesse?
O que me esmaga é o arrependimento. Todas as vezes que me arrependo sofro. E sofrer não é definitivamente a minha sina. Mas continuo sendo o imbecil que erra como qualquer ser humano.