domingo, 19 de abril de 2015

A MÃO DE DEUS BRASILEIRA

          Dizia hoje um repórter da SIC Internacional, uma emissora de televisão de Portugal, que a seleção brasileira de futebol está a jogar “a passo”; e que, por isso, via boas possibilidades de vitória sobre o Brasil no jogo da próxima sexta. Imagino que o “jogar a passo” ao qual se referiu o repórter seja o mesmo “jogar de salto alto” a que me referi há alguns dias.
          Sim, a seleção brasileira faz tantos toques de lado que parece que suas chuteiras têm salto alto. Seu ritmo em alguns momentos do jogo é tão lento que nos enchemos de exaspero. A própria seleção portuguesa não se intimidou – hoje partiu para cima dos coreanos do norte e os arrasou. O regime há de estar a engendrar uma severa punição ao escrete.
         Não bastasse nosso jogo enfadonho, a imprensa local, que está sempre a querer manipular nossos sentimentos e opiniões, comemorou hoje o segundo gol do Luís Fabiano ontem contra a Costa do Marfim apelidando a jogada que o antecedeu de “a mão de Deus brasileira”. Cá entre nós, se há uma tentativa de fazer humor com uma jogada irregular feita por um atleta brasileiro, é uma horrorosa e tétrica investida. Se houve perfídia no lance – o que de fato aconteceu de forma escandalosa! – o mínimo que a imprensa poderia fazer era ficar calada. Esta mesma imprensa indignou-se e revoltou-se recentemente com um gol de mão feito por atleta do Paraná contra o time do Ceará Sporting. A própria imprensa nacional quase vai ao delírio quando o Maradona fez um gol de mão na copa do México em ’86. Para nos deixar ainda mais atônitos, a Argentina terminou campeã. Fomos tomados de acessos e cólicas irremitentes. Que mensagem sub-reptícia quer esta imprensa passar a seus leitores?
        Falemos ainda da imprensa. Certa vez o senhor Galvão Bueno afirmou no ar, para os quase duzentos milhões de brasileiros que o assistiam, que gostaria de ganhar não sei que torneio através de uma vitória frente à Argentina com gol de mão marcado aos quarenta e seis minutos do segundo tempo. Não me lembra se o senhor Galvão Bueno fez tal comentário antes ou depois da façanha Argentina no México. Se antes, o Maradona agradece até hoje a dica; se depois, demonstra que ele morre de inveja da desonestidade dos argentinos em campo.
Alguém que me lê há de lembrar este triste episódio. O homem, também querendo fazer piada, é apologista de comportamento desonesto, assim como a imprensa local, desde que não seja contra si mesmo, ou contra seu país, ou contra os seus. Eis aí exposto em sumas palavras o pensamento de parte da imprensa brasileira, talvez a traduzir e explicar nossos políticos e o comportamento de boa parte dos brasileiros em seu dia-a-dia.
          Voltemos à imprensa portuguesa. Entrevistados nas ruas do país, do Algarve ao Porto e Norte, na Madeira e Açores, os portugueses foram francos: - a vitória numa copa do mundo com escore tão alargado é coisa para acontecer uma única vez a cada século. Por um momento me assaltou a dúvida: é raro o escore ou é rara a passagem às oitavas-de-final? Presumo que ambos o sejam. Estavam tão extasiados que comemoravam como comemoram aqui os ufanistas brasileiros. Acreditam que podem vencer o Brasil, mas já estão satisfeitos com o feito de hoje.
          A moral de toda essa estória é que nós brasileiros não sentimos a menor vergonha de lesar os outros. Traímos nossa impostura ética em nossa retórica cheia de mágoa e indignação quando somos nós os feridos. Quando não há vergonha não há pecado. Vide Adão que se escondeu da face de Deus quando ouviu sua voz a chamá-lo no jardim. Fosse Adão brasileiro viria nu ao encontro do Senhor mascando chiclete e retrucando: -“Fala aí, meu velho!”
         A “mão de Deus brasileira” é, de fato, a mão do pai da mentira.

Fernando Cavalcanti, 21.06.2010