sábado, 25 de abril de 2015

A MORTE DE AMORIM

Quiseram matar o Amorim. É certo e sabido que Amorim não é lá flor que se cheire, mas não chega a ser um mau caráter. Óbvio é que, na vida, quem não é mau caráter uma ou outra vez? Na vida há que se aproveitar tudo e de (quase) tudo. E, mesmo que não se seja mau caráter segundo seus próprios olhos, eventualmente o será aos olhos de alguém. O que se pode fazer quando alguém resolve pensar que você é um mau caráter? Nada, eis a verdade. Portanto, a princípio não haveria justificativa para alguém querer matar Amorim.
É também sabido que os boatos correm. E os boatos nunca falam de bem. Sempre falam para denegrir, para deturpar, para exagerar, para desqualificar, para o mal de alguém. O boato serve à nossa ânsia de realizar a falência alheia. O boato é nossa maldade coletiva, sem rosto, sem início, sem fim, com alvo certo. O que fazer quando vítima de boato? Nada. Não há nada a fazer ante um boato. Dou exemplo. Amorim estava em casa, tranquilo, quando toca-lhe o telefone. Era um amigo dando-lhe conta de seu infarto. Um boato havia “enfartado” o Amorim. Não se entrou nos detalhes do boato, mas seguramente ele estaria no CTI, com tubos e soros em todas as veias e buracos de seu corpo. O laudo eletrocardiográfico não seria esquecido: uma taquicardia ventricular prenunciando a fibrilação fatal. E, se sobrevivesse, a angiografia coronariana seria das piores: uma oclusão de noventa por cento na origem da coronária esquerda. As enzimas seriam elevadíssimas, dando conta do dano ao músculo.
Repito: o que fazer ante um boato tão bem engendrado, repleto de sentido e possibilidades? O amigo sentiu desanuviar-se a tragédia ao ouvir a voz de Amorim, cheia de vigor e gargalhadas abjetas. Pôs-se, então, Amorim a explicar-lhe ter sido vítima de alterações pressóricas. Nada mais. E entraram a falar da inevitabilidade e do determinismo genético. O amigo o confortou confessando seus próprios e semelhantes distúrbios. E concluíram que a idade era a grande culpada de tudo. Estava encerrado, assim, um boato. Para o referido amigo. Outros estarão recebendo ainda agora, no momento em que escrevo, as más novas sobre Amorim. Não há dúvida de que estas serão bem piores. É possível até que Amorim já tenha sido inumado. Iniciará a semana andando qual zumbi pelos corredores da repartição.
Conclui-se, então, que não há nada mesmo a se fazer ante um boato. Até porque ele, repentinamente, deixa de ser boato e entra para a lista de tragédias da vida de cada um de nós. O melhor seria responder, a quem interessar e indagar, para a decepção dos arautos do holocausto: -“Calma... Ainda não foi agora!”

Fernando Cavalcanti, 12.10.2008