terça-feira, 21 de abril de 2015

OUTRAS CONSIDERAÇÕES FUTEBOLÍSTICAS

Deram-me os nomes dos bois: Everaldo, Elton e Rogerinho. Esses senhores são os jogadores do rebaixado Fortaleza que, segundo os meus taxistas, farreavam todas as noites, exceção feita às noites que estavam fora do estado. Nestas, presume-se que farreavam alhures. Agora, já tarde, vem de lá o senhor Lúcio Bonfim anunciar que descobriu haver no plantel jogadores vagabundos. Pena ele não usar os serviços de meus taxistas. Se o fizesse, saberia tudo. Os taxistas tudo vêem, tudo sabem. Ontem um deles, ao ouvir de mim um hipotético salário desses senhores, fuzilou: -“Que nada, doutor! Um desses aí ganha seus 80 mil!” Bem se vê que está certo o ditado que diz: quem nunca come mel quando come se lambuza.
Ontem, tão logo recebeu meu texto, bateu-me o telefone o meu querido Pedro Olímpio. Alinhou-se comigo na ideia da estupidez futebolística. E municiou-me de mais dados e fatos.
Fiquei sabendo das casas, bares e restaurantes que só passam jogo do Ceará. Existem as que só passam os do Fortaleza. As razões são óbvias: os donos são seus torcedores. Só transmitem jogos do rival quando seu time não joga e única e exclusivamente para “secar” o outro. Concluo, então, que torcer vem acudir os que precisam, necessitam, têm ânsias de odiar ou de mal-querer. Não basta amar de paixão e perdidamente seu clube do coração. É preciso odiar visceralmente o adversário. A pergunta que faço é: e se morrer o adversário? E se deixar de existir? O que será de si mesmo?
Imaginemos que desapareça o Fortaleza em seu rebaixamento à terceira divisão. Que será do Ceará? A quem seus torcedores odiarão? Há algo de distúrbio afetivo nesse ódio escolhido a dedo. O clube rival é o repositório de uma tralha emocional basicamente podre. Em vez de se odiar a mulher, ou o chefe, ou o vizinho, odeia-se o clube rival. Então, os 60 mil torcedores convocados ao Castelão para o último jogo do Ceará, onde se espera aconteça a consagração final, devem todos marcar consulta com psicólogo já na segunda para esclarecer qual é o verdadeiro objeto de sua projeção.
É tão grave e notório o ódio que se tem que o objeto odiado foge a milhas de distância para não se ver vítima primeiro da angústia da derrota, segundo da execração pública pelo oponente. Foi o que ocorreu com meu querido e ausente amigo Luís Júnior que, antevendo a tragédia da queda do Fortaleza e a visão dolorosa da ascensão do Ceará, tomou um avião e foi refugiar-se em algum lugar da Flórida. Lá ficará até que se desanuvie a patuscada do Ceará e as humilhações do Fortaleza. Para ele, é “flórida” ver seu arquirrival no topo. É ferida mortal e dolorosa. Quando voltar já lhe terei marcado a consulta com profissional competente. Seu tratamento deve-se iniciar urgentemente, sob pena de ser vitimado de melancolia e depressões atrozes.  
Fiquei sabendo também, e por isso fui injusto em meu texto anterior, que os cearenses teremos, na segunda divisão do brasileiro, o time do Icasa, que ascende da terceira divisão, para onde foi o Fortaleza. Vejam que coisa interessante. Fica a sugestão aos amigos torcedores do Fortaleza: se não podem torcer pelo Ceará na primeira, já que seu ódio não permite, torçam pelo Icasa na segunda. Será um bálsamo a aliviar tamanha vicissitude. Sim, porque o torcedor cearense é tão besta, mas tão besta, que torce por um time no Rio, um em São Paulo, outro em Minas, e por aí vai. Pergunto se os cariocas, ou os paulistas, torcem por algum time do estado do Ceará. E, o atestado da besteira futebolística: quando jogam Ceará e Flamengo, o torcedor do Ceará vira casaca e torce pelo Flamengo em plena capital cabeça-chata. Se assim fazem, não há porque não torcer pelo time aqui do Juazeiro.
E haja psicólogo para tratar desse povo.  
Fernando Cavalcanti, 25.11.2009