terça-feira, 21 de abril de 2015

GUARANY (e olha que o Pedro é sobralense!)

Uma ideia estapafúrdia como essa só pode ter saído da cabeça de meu querido Pedro Olímpio. Dado a incitar o debate, afeito às provocações, penso que em criança era daqueles que, entre dois amiguinhos a se estranhar, riscava uma linha ao chão e incitava cada um a pisar na “mãe” do outro e iniciar a briga. Não é que ele me levanta a suspeita de o Guarany de Sobral ter se vendido ao Fortaleza? Podem acreditar.
Hoje é quarta. Não, de fato é quinta – já passa da meia-noite. Estava demorando. Pensei que o Pedro, a essas alturas, tivesse metabolizado o jogo de domingo. Pelo jeito ainda não. Quer que eu comente o tal jogo. Antes, porém, um comentário vem bem.
É o seguinte. Há anos venho afirmando peremptoriamente minha aversão ao futebol. Eis que, de uns tempos para cá, escrevi vários comentários sobre futebol e sobre partidas de futebol. De início critiquei o próprio futebol, e em seguida comentei partidas. Em suma: - tenho dado mais atenção ao futebol do que minha ojeriza permite. Já me pergunto se minha ojeriza não seriam os genes de meu avô, José Cavalcanti de Araújo, a comandar a síntese de proteínas anti-futebol. Elas teriam um efeito hormonal e agiriam n’alguma área de meu cérebro causando tamanho desprazer no momento em que se ventilasse algo, qualquer coisa, sobre futebol. Se for assim, seria possível que tais genes estivessem tendo sua atividade agora suprimida? Estariam agora a se manifestar os genes pró-futebol, todos eles localizados em meus cromossomas Y? Bem, tudo isso é de uma possibilidade infinita, sem dúvida.
Em não diria tanto. Com efeito, ainda não me vejo saindo do sossego de meu lar para ir a um estádio de futebol. No primeiro mundo, talvez. Os turistas são uns bobões. Fazem qualquer coisa para dizer que fizeram. Mas, aqui... está fora de questão. Não há a menor possibilidade. Acredito que minha ânsia literária também contribui para minhas incursões futebolísticas, e nada mais é do que uma resposta a uma provocação de meu Pedro. Eu diria que ele conhece o meu ponto fraco, o safado. Dito tudo isso, vamos ao jogo.
A verdade é que não o assisti por completo. Não tenho a devida paciência. Só para terem uma ideia, não vi os dois últimos gols do Guarany, nem os três últimos do Fortaleza, os que empataram a partida. Nem vi o olé que, segundo dizem, o Guarany impôs ao time da casa. Entretanto, o pouco que vi ao início demonstrou um Fortaleza acanhado e um Guarany atrevido. Depois veio o escore elástico em favor do time de Sobral, sua empáfia no olé e em gols perdidos em função do excesso de diferença no placar, e a retirada do tal do Clodoaldo por parte do Neto Maradona, técnico do Guarany. Na seqüência, a reação fulminante, inesperada e gloriosa do Fortaleza.
Como, neste cenário, supor uma negociata, um conchavo, em favor do time anfitrião? Não creio, caro Pedro. O que não se falou até agora foi no mérito que tiveram os jogadores tricolores, particularmente esse Rinaldo, que entrou e fez dois gols. Enquanto o Maradona tirava o melhor do Guarany, dando-se por satisfeito com o placar e desacreditando numa reação do adversário, o técnico tricolor – como é mesmo seu nome? – punha o Rinaldo. O técnico do Fortaleza fez o que se deve fazer quando se está perdendo: mexeu no time. O outro fez o que não se deve fazer quando se está ganhando: mexeu no time. Atitudes idênticas em contextos diferentes: - saiu vitorioso o Fortaleza. Com tudo isso, perderam o emprego o Maradona e o Valdir Papel, atacante do Guarany responsabilizado por ter contribuído para a derrota por ter perdido um ou dois gols que teriam literalmente inviabilizado uma recuperação tricolor. Lembre-se que ele marcou um dos gols de seu clube. Não foi suficiente. O pobre Maradona foi responsabilizado por mexer no time. E assim desmontou-se o Guarany, que vinha muito bem na competição, no calor da emoção da vitória frustrada. Talvez o erro agora tenha sido da diretoria do clube, que o desarticulou precipitadamente, ainda com meio campeonato à frente.
Aí está, como queria o Pedro, o comentário sobre a propina que o Guarany não recebeu para perder para o Fortaleza. Escrevi como escrevem os comentaristas esportivos: - um resumo do que todos já sabem. Falta apenas entrevistar o Maradona e o Valdir Papel e lhes indagar quanto receberam para fazer as merdas que fizeram.
Vai lá, Pedro. Faz essa pergunta a eles. Vai de capacete e colete a prova de balas. Em minha humilde opinião seus erros são os erros comuns que se cometem no futebol. Se o zagueiro mete o pênalti que perdeu e que deu a vitória ao Fortaleza, estaríamos contando outra história, e quem seria demitido seria seu técnico. Como é mesmo o nome dele?...

Fernando Cavalcanti, 04.03.2010