quinta-feira, 2 de abril de 2015

FASE POUCO BOA

Disse o Mesquita o seguinte sobre o resultado mais recente de seus negócios: –“Foi pouco bom”... Observem a sutileza – pouco bom. 
          Tão logo o homem proferiu a frase, criou-se um alvoroço entre os amigos. Uns achavam que ele dissera que os negócios iam bem, mas não tão bem quanto antes; outros saíram a lucubrar que os negócios iam de mal a pior, enquanto outros nada acharam e não se aventuraram a oferecer interpretações. Vamos e venhamos – pouco bom é uma expressão pra lá de ambigua. Os eufemismos têm sido a tônica do momento, inda mais em se tratando de resultados. É só olharmos os resultados da política econômica no país, os resultados da Petrobras, da Caixa Econômica, e por aí vai... Nessas instâncias então os eufemismos salvam a pátria dos políticos e do governo – mas não a do povo.
         Noutras circunstâncias a expressão não teria lugar. Imaginem que saio do cinema e alguém queira saber do filme. Digo: –“Foi pouco bom”... Meu interlocutor não saberá se irá se aventurar ou não a entrar na sala de projeção. Há de me olhar com aquela expressão com que se olha qualquer doido varrido. Assim, aguarda-se ansiosamente o próximo encontro dos amigos a fim de que o Mesquita acabe com a angústia que nos criou. 
        A preocupação é legítima. Afinal, o Mesquita não é homem de lidar bem com coisas pouco boas. Meus mais serôdios leitores não sabem, por exemplo, que o Mesquita certa vez, doente dos joelhos por causa do futebol, submeteu-se a duas operações. A primeira operação, no joelho direito, foi realizada por um espírito do além, através de um médium – foi uma cirurgia espiritual. A segunda, realizada por um profissional de carne e osso e com as devidas preocupações com a assepsia e antissepsia já que as diminutas bactérias fazem parte, também, do mundo material, foi realizada sobre o outro joelho. A operação feita pelo cirurgião letrado na Universidade Federal de Ceará foi um sucesso. A outra, a primeira, foi um fracasso.
        O resultado pouco bom da operação espiritual deixou o homem assaz descontente com o espírito operador. Afinal, segundo o próprio Mesquita, um cirurgião formado na universidade do além é, ou deveria ser, muitíssimo mais sabido que um cirurgião mortal. Se não me engano, o Mesquita ficou decepcionadíssimo com o tal resultado, de modo que pode-se presumir que também não gostou nenhum pouco do resultado contábil de seus negócios. É bem verdade que ele não se utilizou desta expressão à época da operação mediúnica. Anelo encontrá-lo pessoalmente para lhe perguntar precisamente o seguinte: –“Mesquita, a operação espiritual foi pouco boa”? Dependendo da resposta, acaberemos por conhecer o que ele quer dizer com pouco bom.
          Devo confessar meu interesse imediato no dirimir tal dúvida. A expressão tem o potencial e a capacidade de retardar o diálogo e, todos sabem, às vezes é preciso que certos diálogos se retardem, seja porque nos sejam agradáveis, seja porque, ao contrário, não o sejam. Na última hipótese, seu uso dá-nos a ganhar tempo a fim de que o tenhamos mais para pensar no que diremos a seguir. 
       Confrontemos, para efeito de comparação, as expressões “pouco bom” e “muito bom”. Esta última tem largo uso. Afinal, é uma forma do superlativo absoluto analítico, se não me engano, assim como pouco bom. O diabo é que não se a ouve por aí. Quando o resultado de algo não é muito bom é porque foi apenas e simplesmente bom, e estamos conversados. Não chegando a ser bom é porque foi ruim mesmo, o que nos leva a ter a quase absoluta certeza de que o Mesquita se utilizou de um deslavado eufemismo em seu discurso. (Já estou achando desnecessário um encontro para esclarecer essa estória.) 
          Como o amigo não lida bem com resultados pouco bons, estou deveras preocupado. Lembrei-me que, outro dia, confessou-me: – estava de pavio curto. Não se sentia capaz de tolerar artimanhas alheias na tentativa de passá-lo para trás. Imaginei que ele deveria estar tendo muitos dissabores. Afinal, vivemos no país em que a todo instante estão tentando nos passar para trás. Disse estar agressivo e sem paciência. 
          Assim, é preciso ter muito cuidado ao conversar com o Mesquita. Ele está a viver uma fase muito superlativa em tudo e em todos os aspectos. Cada pingo de chuva cai-lhe como uma torrente; cada sussurro ao pé d'ouvido lhe soa como um berro ensurdecedor; cada luminosidade lhe brilha como fulgor insuportável; e cada palavra menos amena lhe é ouvida como o pior xingamento de toda sua vida. Fica, então, o alerta aos amigos irmãos – o homem está vivendo uma fase pouco boa...