domingo, 19 de abril de 2015

DIGAM AO POVO QUE FUI!

Escreveu-me o Pedro indignado com a manchete de hoje do jornal O Povo. Não entendia como o jornal dava tanta importância a um evento tão banal como a saída de um técnico de futebol. Vocês devem ter visto. O técnico do Ceará Sporting pediu as contas e foi ser treinador do Vasco da Gama.
Não há nada demais nisso. O homem ia dobrar o salário, voltar à terra natal, ficar perto da família. Quem não iria? Qualquer um faria o mesmo. E estava lá, estampada em letras garrafais na primeira página: Fui! Ocupava metade da capa. Era um senhor Fui! Chegou a passar a ideia de que o homem saía contrariado, aborrecido com algo que lhe fizeram. Não foi isso. Saía pelas três razões elencadas acima. A multa pela rescisão vai ser paga pelo Vasco – só trezentos mil reais. Uma mixaria.
E saiu o Pedro a procurar as manchetes de outros dois jornais de peso. O Diário foi mais sereno, mais comedido no anúncio; o Estado mais ainda. Vá entender essas diferenças! Afinal, há de haver diferenças, senão basta ter um jornal no estado. Se todos saírem a se copiar entre si não tem por que ter mais de um periódico circulando. O Pedro certamente entenderá que alguma razão existe.
O que não vou conseguir lhe explicar é a importância dada ao assunto por um, e um quase desprezo dado por outro. Vai ver o chefe de redação do O Povo torce pelo vovô e ficou fulo com a saída do técnico, justo no momento em que o time vai bem à competição. Ou, por outra, o editor-chefe quis incitar a grande torcida do alvinegro e assim vender mais jornal. Enfim, sabe-se lá!
Talvez o Pedro ache que a notícia da inauguração da ponte da Sabiaguaba merecesse maior visibilidade. Afinal, a obra demorou oito anos para ser concluída, e consumiu muitíssimo mais recursos do que o inicialmente orçado. Seria mais uma história repleta dos temas comuns das obras públicas brasileiras: incompetência, desvio de dinheiro, superfaturamento, etc. etc. Daí a maior importância em ser anunciada na capa. Vai ver por isso mesmo não se deu tanta importância. Poupemos os leitores para que não tenham um infarto. Deixemos a matéria embrulhada noutra página. Até lá terão se adaptado à evidência da pobreza do futebol cearense.
Sem titubeios: jornal vive de desgraças e sensacionalismos. Obras públicas que se arrastam gastando uma fortuna dos cofres governamentais não causam mais sensação nem mais se computa no terreno dos infortúnios do povo brasileiro. Chegamos à banalização do tema. Só há como viver se for assim? Então vivamos assim, bolas! Soframos um pouco com o destino a conspirar contra a campanha do time de futebol. O populacho vai querer saber dessa história nos mínimos detalhes. A ponte finalmente saiu, é o que importa. Demorou mas saiu.
Será que o Pedro duvida que, se o Brasil for campeão da copa, a página inteira de todos os jornais vai ser dedicada ao tema? De lá, da própria página, sairão confetes e serpentinas ao som dos fogos de artifício, vuvuzelas e brados de “É Campeão”! Na página principal do caderno de esportes teremos as fotos da festa que a prefeitura vai dar no aterro da Praia de Iracema, tão logo termine o jogo, com Luizianne Lins sendo carregada nos braços da galera como se tivesse feito o gol da vitória! Viva o Brasil! E haja pagode!

Fernando Cavalcanti, 14.06.2010