domingo, 19 de abril de 2015

BRASIL ZERO A ZERO

          Alguém acredita mesmo que esse timezinho do Brasil vá longe nesse torneio? Eu vos digo com a cara mais lavada do mundo: não acredito. Inúmeras variáveis embasam minha opinião. Para ser mais exato, são as invariáveis as pilastras de meu parecer. Dirão alguns que a ausência do Elano, Robinho e Kaká foi decisiva para a péssima apresentação contra Portugal. Discordarei veementemente.
          Esqueçamos todas as opiniões e justificativas dos narradores das emissoras brasileiras. O Galvão Bueno dizia: -"Os jogadores estão se poupando!" O da SporTV bradava: -"O time português está na retranca!" Outro não sei de onde anunciava: -"O Brasil só joga pela esquerda!" E todos lembravam a intervalos o histórico das partidas entre os dois países, como se isso fosse garantia de nova vitória por parte da equipe de melhor currículo.
          No frigir dos ovos o que se viu foi uma péssima partida de futebol, e a certeza de que o Brasil não tem time para ganhar essa copa do mundo. A não ser que modifique tudo, ou quase tudo, é uma questão de tempo a eliminação. Ainda que não se possa modificar o plantel, pode-se modificar o ânimo dos jogadores. O exemplo é esse tal de Felipe Melo, que veio jogar contra Portugal como se estivesse disputando uma final em campo de várzea. Estava completamente perdido e comprometido até o pescoço num embate de luta corporal contra o português Pepe, que por sinal é brasileiro de nascimento, lá das bandas das alagoas. Modificou-se o jogador, mas não a apatia de um time fraco e inexpressivo. Há como mudar isso? Se houver...
          Quem vê jogar uma Argentina ou mesmo - quem diria? - um Japão, sabe que esse Brasil que está aí não vai muito além. Como desde '98 estou convencido de que o futebol tornou-se uma grande arena de negociatas e maus bofes, penso que se pouparam Elano e Robinho em função da classificação já garantida. Jogar pela tabela, pela contagem dos pontos há muito se tornou a meta no futebol.
         Um amigo dizia, coberto de razão, que o futebol é o único esporte onde o mais fraco vence o mais forte, não infreqüentemente. Pensando melhor, e a propósito de se jogar por resultados, o futebol é o esporte onde com freqüência se evidenciam a covardia e a mediocridade. Por permitir o empate, único esporte onde isso é possível, o futebol possibilita, como agora, partidas ridículas, repletas de covardia, mediocridade e cinismo. Falta nelas o mínimo de patriotismo - se a competição é internacional -, de vontade de vencer, de vontade de glória. Como o resultado do empate satisfaz aos dois lados, fazem o pacto que a ninguém satisfaz, exceto aos burocratas e aos jogadores, estes no clímax profissional e financeiro. Imbecil é o povo que se prepara para a guerra e vê frustrada sua expectativa de fortes emoções.
          É preciso que se diga a esses senhores que queremos ganhar, sim, mas que não nos importamos se perdermos derramando o sangue no campo de batalha. Deploramos a mediocridade e covardia do empate acordado, compactuado. Numa fábrica de talentos e craques, poupar qualquer jogador significa que não se levou o melhor plantel. O Brasil talvez seja o único país do mundo que possa formar cem excelentes seleções de futebol. Levar duas ao mundial seria de uma facilidade enorme. Levar uma e meia é sintoma de pura incompetência ou, pior, mais um sinal evidente de negociata.
          Então, encaremos os fatos. Na próxima segunda estejamos preparados para outro péssimo jogo, onde a vitória pode ser o resultado, mas sem glória. A imprensa e muitos brasileiros querem ser campeões jogando pela tabela e derrotando times inexpressivos. Em suma: campeões de mediocridade. Seremos campeões por vencer os fracos que venceram os fortes com sua raça, vontade se superação e glória. Em suma: campeões de covardia.

Fernando Cavalcanti, 26.06.2010