domingo, 19 de abril de 2015

ANÁLISES FUTEBOLÍSTICAS

          Até há pouco tempo eu ainda me permitia torcer por time de futebol. Sim, me aventurava a torcer pelo time que ganhasse. Nesse tempo em que torcia por quem ganhasse não mais freqüentava estádios, nem assistia a jogos pela televisão. A verdade é que o futebol “oficial” deixou cair sua máscara em 98 em França. Desde então tive a mais figadal certeza: os “esquemas” abundam no mundo do futebol. Mais, e por extensão: os “esquemas” abundam no esporte. Portanto, passei a torcer por quem ganhasse. Queria ver os gols. Quem fizesse mais tinha a minha humilde torcida. E ainda era generoso: quando um time levava um gol, torcia a que empatasse. Se se mostrasse incompetente para fazê-lo, vingava-me torcendo a que o adversário fizesse mais gols e ganhasse de lavagem. Para resumir, não havia possibilidade de eu sofrer com as armações do mundo do futebol.
         Mais recentemente desisti. Custa-me entender a paixão de quem quer que seja pelo futebol, ou pelo automobilismo, ou pelo basquete, ou pelo vôlei. Alguns amigos acham “lindo” o estádio lotado, a torcida eufórica aos gritos, as bandeiras flamulando, os confetes e serpentinas caindo. Tem gente que chora, se emociona, passa mal. Eu? Não dou a mínima. Não fede nem cheira. Ou por outra, mais fede que cheira.
          Vemos aí o Ceará Sporting Club (ou Clube?) passando, e subindo, da série B do campeonato brasileiro para a série da elite. Acabo de assistir a uma entrevista de meu amigo Evandro Leitão, presidente do Ceará, onde, com as bochechas empapadas de comemorações perenes, convocou 60 mil torcedores a comparecer sábado ao Castelão para incentivar o clube a vencer o América e fechar a campanha com chave de ouro. A julgar pelo que tenho visto na cidade, seu convite será amplamente aceito, não há a menor sombra de dúvida. Rodaram-se, então, imagens das comemorações da ascensão do clube onde aparecia meu querido Evandro aos prantos nos braços de outro varão torcedor. Que coisa desproporcional! Quando encontrá-lo – e espero que seja em breve – dar-lhe-ei uns bons puxões de orelha a que se comporte feito gente na próxima vez.
         No último sábado, dia em que o Ceará venceu a Ponte Preta e se classificou, recebi no celular uma mensagem de meu querido e estimado amigo Ivan Machado fazendo chacotas e implicando com a turma do Fortaleza, principal rival do Ceará. Bati-lhe o telefone imediatamente e ouvi um Ivan absoluto, resoluto, régio. Escalou-se a tomar umas cervejas comigo tão logo retornasse do IJF onde faria uma endoscopia. Não apareceu. Suponho que tenha-se perdido n’algum rega-bofe alvinegro. No domingo, ao abrir minha caixa de entrada na internet me deparo com meia centena de mensagens de meu amigo Águia, todas sobre o Ceará, desde sua fundação até o feito recente. Nunca vira demonstração de amor tão pública em toda minha vida. Sua mulher deve estar roxa de ciúmes do Ceará. Nenhuma franqueza foi maior e mais contundente do que a de meu querido amigo Edson Lopes Júnior, que bradou aos paralelos e meridianos: -“Nem me importa que suba o Ceará – quero é que caia o Fortaleza!” Acabou presenteado duas vezes, o safado.
          O Fortaleza, por sua vez, desceu à série C e envergonhou seus asseclas. Tenho amigos que se trancaram em casa e desligaram seus telefones. A tristeza e decepção com o desempenho de seu time aliadas às gozações dos torcedores do Ceará fizeram de seu fim de semana um inferno. Alguém há de duvidar do que digo? Acreditem: é possível. Melhor: é a pura verdade. Há quem sofra por isso. Imaginem: o sujeito se deixar ficar infeliz por obra mal feita de doze varões pernas de pau. Alguns perderam uma dinheirama em apostas. Imaginem: o sujeito tirar da boca das crianças para apostar nos profissionais da bola. O querido amigo Sérgio Moura, que tinha-nos convidado a churrasquear em sua casa recém-reformada no final da tarde de sábado, antevendo as nuvens negras da tempestade desligou o celular e escondeu-se Deus sabe onde. Não se dignou a avisar aos intimados que uma súbita e incontrolável indisposição de vergonha futebolística o alcançara. Fez feio junto ao Fortaleza. Na seara do rebaixado é quem merece um puxão de orelhas. Que vergonha!
          O que acontece é o seguinte. Moram aqui próximo, em prédio vizinho, três ou quatro atletas do tricolor. São uns garotos jovens, nunca comeram mel, saíram da periferia ou do interior para morar no Meireles e jogar em grande clube da capital. Vocês sabem, o dinheiro é uma merda, domina o desavisado. Somem-se uns rabos de saia e as agradáveis noites de primavera e aí teremos dias e dias de ressaca e pernas bambas. Assim dá para jogar futebol que preste? Quem me contou essa fofoca foram os taxistas da redondeza, dos quais sou cliente fiel. E diziam: -“O senhor sabe, né doutor... nós vemos tudo... sabemos de tudo!” Não sei se fará diferença contar-lhes que são todos torcedores do Fortaleza.
         O Ferroviário Atlético Clube também desceu. Não sei para onde, mas desceu. Dizem que vai jogar em várzea, com entrada gratuita, já que não há muros nem portões. Quem quiser pode levar qui-suco e dindin. E – pasmem! – conheço uns torcedores do Ferrim. Os que julgam terem eles desaparecido com a morte dos mais antigos e remanescentes, se enganam. Os finados deixaram uma prole de jovens torcedores fiéis. A diferença é que os torcedores do Ferrim não sofrem. Como o mendigo da praça que usa sua úlcera da perna para sensibilizar os transeuntes, os que torcem pelo Ferrim usam essa torcida inexplicável para fazerem chacotas de si mesmo e angariar a simpatia de quem quer que seja. Seria assim: o Ferrim não suscita ódios nem temores. Vive de derrotas. Eventualmente ganha uma, o que também não faz diferença.
       Não direi aqui que o Ceará ganhou através de algum “esquema”. Não foi o caso. Time nordestino não protagoniza “esquema”. Pode, sim, ser vítima de um. Assim, mais valor ainda tem a campanha do Ceará, que sofreu com gol de mão e tudo.
           Ao Fortaleza, como diriam os ingleses, shame on you! Um time que entra para a zona de rebaixamento na décima quarta rodada e nela permanece até o final da competição sem que nada se faça para corrigir os erros merece o que obteve.
        O Ferroviário fez o seu papel. Ou seja, nenhum. Deveria contratar os rapazes do Fortaleza que moram no Meireles. Eles adorariam tomar umas cachaças após o jogo na beira do rio.


Fernando Cavalcanti, 23.11.2009