quarta-feira, 15 de abril de 2015

COTIDIANO II: O POVO

Outro dia recebi uma mensagem de uma senhora que não conheço. Em verdade ela respondia a uma correspondência eletrônica que recebeu de minha parte, enviada a um amigo comum. Ela me pareceu indignada com o que afirmei. Eu escrevi, em letras garrafais, que o povo é canalha, que tem responsabilidade sobre tudo o que os maus políticos fazem. Afinal, é o povo que os elege. Não são os norte-americanos, nem os chineses, nem os argentinos, nem os ingleses, nem ninguém, além do povo brasileiro, que elege a súcia política que ora viceja no Brasil. Se estiver enganado, que alguém aí me tire desse engodo.
Por que essa senhora se afobou com o que eu disse? Eu lhes digo. Por uma ingênua razão: ela imagina um povo casto, manso, indefeso ante as cachorradas dos políticos. O povo é inculto, ignorante, não sabe o que está fazendo, coitado. Esta é sua tese. Para ela, o povo é a vítima. 
Já disse, não conheço esta senhora. Presumo que já era nascida pelos anos 70. Haveria de ser uma adolescente ou quase isso. Nos anos 70 cheguei à adolescência. Desde então ouço essa estória do povo que é vítima. Seria assim: o povo é inimputável. Como uma criança que não sabe o que está fazendo, assim seria o povo àquela época. Vigia o regime militar. Ela continua afirmando, ainda hoje, que o povo permanece sem a devida informação que o habilite a formar juízo de valor e, por conseguinte, alcance o intelecto necessário a escolher melhores representantes. Findos os anos 70, quase trinta anos já passaram. O século passado foi exponencial para a curva de aprendizado da humanidade em todos os campos do saber. Mesmo massacrado por duas grandes guerras, e até por causa delas, o conhecimento humano cresceu assombrosamente. Essa aceleração não parece ter fim e, de fato, segue a crescer. A pergunta que faço é: qual a relação entre conhecimento técnico e caráter? Eduardo Giannetti da Fonseca afirmou que a humanidade galgou estupendo desenvolvimento tecnológico, mas permanece no que chamou de “neolítico moral”, um estado de subdesenvolvimento do caráter. Minha tese é a de que o brasileiro, do ponto de vista moral, está ainda uma era anterior a esta fase da humanidade. Dito de outra forma, nosso caráter é ainda pior do que o de nossos congêneres de outras nações. O mau caráter desenvolvido é ganancioso; o mau caráter brasileiro é o de um rato: vive de migalhas e matéria putrefata. Em ambos os casos, o mau caráter se vale do conhecimento técnico - ou da falta dele - apenas no momento de escolher qual lado da intemperança mais o agrada. A falta do conhecimento técnico apenas, e talvez, pende a balança para o lado do contentar-se com pouco. Eis aí tudo.
A julgar correta a tese do povo coitado, perde-se a noção da verdadeira causa do problema – o pulular dos tubarões na política – e conseqüentemente retarda-se a possibilidade de sua solução. Esse é o mal maior. Pior do que a existência de um sério problema é o não vislumbramento de sua solução em curto a médio prazo, a falta de uma luz no fim do túnel. Mais grave ainda é a nítida impressão de que o povo não quer educar-se. Prefere permanecer como está, é feliz assim. Quer mesmo as migalhas que lhe dão, não importa o que façam seus representantes. Educar-se é crescer. Aumentam-se as responsabilidades, o comprometimento, a imputabilidade, os deveres. O povo prefere ser objeto de cuidados ao ônus de sua evolução. A senhora que se enfezou com o que eu disse há de entender, após ler-me o de acima, quão troglodita sou. Assumo: detesto a indulgência das explicações benevolentes que tentam justificar os que são irresponsáveis por escolha própria. Não há nada pior do que diminuir-se a si mesmo para escapar dos deveres da civilidade e da cidadania.
Cheguei a casa após a tentativa de operar uma paciente que padecia de oclusões em suas artérias da perna esquerda. Observem os laicos que perna esquerda não é termo que um médico use, exceto se estiver a se referir à parte do membro que vai do joelho ao pé. Não é o caso. A doença da mulher começa no abdome. Não havia uma prótese disponível para uma operação a céu aberto. Nem havia material para uma operação minimamente invasiva, que daria a ela as vantagens de uma operação minimamente invasiva. Ela está internada há trinta dias. À espera. Seu internamento custa dinheiro. Custa tempo e a põe em risco. Ela espera os recursos que hoje, mais uma vez, não estão disponíveis. Descobri, juntamente com a equipe de colegas, que não há prótese porque os fornecedores não a vendem a quem não paga. O estado do ceará – assim mesmo, em minúsculas – não tem honrado seus compromissos junto aos seus fornecedores. Os doentes carentes - que são os que procuram o hospital público – não recebem o tratamento que merecem, segundo uma constituição que aparentemente de nada serve, porque o estado é caloteiro. Fiquei a notar – eu devo ser paranóico – que está à época de prestar contas com o fisco. Vamos pagar quase um trilhão de reais em impostos ao ano para ver isso acontecer. A paciente chorava em sua velhice abjeta e humilhante. Não eram muitas as lágrimas: derramou-as por toda a vida. Suas glândulas lacrimais se exauriram. Era um choro seco, quase sem lágrimas. Que importa? Quem se importa? Seguramente alguma esperança ela guarda em sua fé desprovida. O mundo real é por demais cruel para viver sem essa fé. Eu vim para casa. Trabalho menos do que manda o paradigma, há algum tempo, para fugir à derrama. Descobri outros amores em minha vida. Deles não posso prescindir. Sem eles não posso viver. Servem-me à catarse. 
Já vinha, no caminho, anelando cozinhar algo para comer. Pensava, devo admitir, na cerveja a gelar na geladeira. Haveria de bebê-la enquanto cozinhasse. E queria ouvir música. Admita-se: o melhor do viver está nesse sossego particular e impenetrável; nessa dissensão estará a semente da confirmação da inutilidade do tudo. Ano passado fui à Suíça. Temia minha própria ausência. Julgava ser único, insubstituível, pedra angular de qualquer coisa. Lutei comigo mesmo e fui: foi como morrer para o tudo. Ele, o tudo, se resolveu facilmente sem mim. Descobri em vida o que muitos só descobrem na morte: o mundo continua sem mim. Nada sou para o mundo, exceto mais um fardo a suportar. Então, resolvi, doravante, ser feliz sozinho. 
Ouvi Locomotiva enquanto cozinhava e sorvia minha Heineken. Locomotiva é uma dessas bandas forjadas nas pressões subterrâneas da musicalidade cearense: talento de sobra e desprezo maior ainda a músicos talentosos e virtuosos. Sobre eles me exijo uma noite de meu cotidiano.

Fernando Cavalcanti, 30.03.2009