domingo, 19 de abril de 2015

FORTALEZA X MARANGUAPE

De quem é o estádio Alcides Santos? Acho que é do Fortaleza. Ou será do Calouros? Talvez seja do Tiradentes. A verdade é que não sei. Pois bem: passando os canais em busca de um filme, topo com o estádio Alcides Santos. Pareceu-me um estadiozinho pequenininho, desses onde nós amadores jogamos com os amigos em noites de semana. Não tem arquibancadas; ou melhor, tem, mas do lado de cá. Do lado de lá e atrás de um dos gols há apenas um muro pintado com as cores do Fortaleza.
Agora tenho certeza: - o Alcides Santos é do Fortaleza. Nas outras partes, do lado de cá e detrás da outra baliza, me pareceu haver uma arquibancadazinha mixuruca, dessas que se montam para o corso. Só pude perceber esses detalhes quando o juiz marcou um pênalti para o Fortaleza. O adversário era o Maranguape. Eu nem sabia que Maranguape tinha time de futebol profissional. Sabia, sim, que tem assaltos, homicídios, tráfico de drogas, mas nunca time de futebol. Pois o juiz meteu o Maranguape numa saia justíssima: - a penalidade foi marcada aos quarenta e três minutos do segundo tempo, quando o jogo estava empatado, e no exato momento em que eu passava pelo canal que transmitia o jogo.
Parei. Mesmo o expectador mais averso a futebol como eu pára diante do pênalti. Justiça se faça: o gol é, de fato, o grande e único momento do futebol. O resto é o resto. O resto fica por conta das negociatas e patrocínios. E não é que o Fortaleza converteu? Ganhou do Maranguape, que agora tem time de futebol, por 2 X 1. A humilde torcida presente ao Alcides Pinto quase vem abaixo. Vibrou-se como em final de campeonato. O goleador subiu no alambrado e comemorou com a escassa torcida como se seu gol fosse de final. Puxava a camisa com a mão fechada e a levava a boca para beijá-la. Seria emocionante não fosse desnecessário. Mas depois entendi.
Eu disse Alcides Pinto? Não é Alcides Pinto. É Alcides Santos. E mais um pouco percebi: - o Alcides Santos é um estádio arborizado, ecológico, verde. Se brincar tem até cutia e soim. A fauna e a flora do Alcides Pinto, digo, Santos, deve ser riquíssima. O que tem menos lá é gente. E ainda bem porque, de todos os predadores conhecidos, é o homem o mais feroz e mais mortal. Em suma, o Alcides Santos vai melhor como horto florestal ou como zoológico. Eis o que queria dizer: - o Alcides Santos de concreto é um erro, e seu gramado está fadado a ser palco de peladas.
Ora, não assisti ao jogo. Mas segurei-me um pouco mais esperando uma reviravolta no placar – o Maranguape ficou furioso com o gol do Fortaleza. Vi-me, então, assistindo aos melhores momentos, ao final da partida. E o que os melhores momentos mostraram foi uma grande e vergonhosa pelada, dessas que divertem pela ruindade dos atletas. O gol ao apagar das luzes, feito através de um pênalti altamente duvidoso, levou os jogadores tricolores ao delírio justamente por esta razão: - livrou-os do vexame de empatar com o Maranguape, que agora tem time de futebol, dentro de casa numa ruidosa e vergonhosa pelada.
Não sei se devo dizer. Vou dizer. Será que digo? Já ontem falei sobre jornalistas. Mas, vá lá.  É o seguinte: - o pior foram os comentaristas esportivos ao final. Numa esterilidade futebolística como aquela, dizer ainda qualquer coisa é o fim da picada. Inda mais quando se percebe que se está a encher linguiça. Se fosse viva, minha querida avó Dolores diria simplesmente, sem nenhuma inflexão na voz, ao comentar tamanha pelada: -“Nada a declarar.” Foi realmente de fazer dó.

Fernando Cavalcanti, 24.01.2010