terça-feira, 21 de abril de 2015

POBRE FUTEBOL CEARENSE...!

Comentar o jogo Ferrim e Fortaleza? Ora, outra pelada. E Guarany e Horizonte? Nem se fala. O Ferrim está em que divisão do Campeonato Brasileiro? E os outros, Guarany e Horizonte? Bem, o Fortaleza está na terceira. Resumindo: todos os semifinalistas do campeonato cearense são da escória do Brasileirão. O Ceará, que está na elite, não figurou nas semifinais.
Decepcionou? Óbvio que não. Já era esperado. Todos sabem que os times da casa impressionam, ou melhor, não impressionam por sua irregularidade. Na primeira divisão do Brasileirão veremos um Ceará indo para cima, indo para baixo, para cima, para baixo, para cima, para baixo... Dirão: -“Não há dinheiro.” Sim, é verdade. Comparados aos times do sudeste e do sul, os nordestinos são uma penúria da falta de recursos. Assim como os melhores jogadores brasileiros vão à Europa ganhar milhões de euros em salários e outros contratos de negócios, ficam os “menos melhores” no sul e sudeste a ganhar milhares de reais. No nordeste ficam esses aí. E, mesmo que uma partida de futebol esteja sujeita ao acaso, o acaso sempre dá mais resultados aos melhores.
Mas, se o Ceará é a elite do estado em matéria de futebol, por que não chegou nem às semifinais? Sabe-se lá. Obra do acaso, mais uma vez. Outro dia vi meu amigo Evandro Leitão dizer que já sabia dos cofres vazios e das dificuldades que o time enfrentaria na primeira divisão do Brasileirão. Ele, que não é besta, tratava de lembrar a todos que têm mania de primeiro mundo que não há primeiro mundo sem dinheiro. Sim, é preciso de dinheiro, capital, moeda, bufunfa.
E o Horizonte? Ora, se o Ceará não tinha dinheiro, o Horizonte havia de ter menos ainda. E se tinha menos, como conseguiu chegar às semifinais? Deve ser novamente o acaso do senhor Mlodinow. Lembrei-me agora de uma frase que ouço desde que era menino: futebol não tem lógica. Vai ver é isso. Não há, no mundo do raciocínio lógico, nada que possa responder a tais questionamentos. Digo, há, sim: justamente a falta de lógica. A falta de explicação lógica é o bálsamo do futebol em se tratando de nossos times pobretões.
Falemos do Ferrim. Tenho uma penca de amados amigos torcedores do Ferrim. Quando lhes pergunto por que torcem por time tão sem expressão, tão medíocre, a explicação justifica, mas não explica. Quero uma que explique. Sou forçado a reconhecer que nenhum deles ainda entendeu a minha pergunta. Serão burros? Não acredito. Dizem eles, por exemplo, que a maior torcida do estado é a deles. Diante da obviedade da falsidade desta assertiva, eles alegam que quando jogam contra o Fortaleza, como ontem, recebem apoio da torcida do Ceará e vice-versa. O diabo é que precisamente ontem havia meio estádio vazio. Sim, o paredão de arquibancadas oposto às cabines de imprensa do estádio Castelão estava virtualmente despovoado. Presumi que seria lá onde deveria estar a torcida do Ceará e, por conseguinte, a grande torcida coral.
Resultado: a explicação de meus amigos quanto à maior torcida não se sustenta no mundo real. Que digam que torcem Ferrim por influência de seus pais até se admite, mas não a ponto de preservarem essa influência até a sepultura. Onde estão sua autenticidade e liberdade de escolha? Conheci amigos que torciam Ceará e viraram casaca, mesmo sob a forte e contínua pressão de seus pais. E assim por diante, têm os torcedores do Ferroviário inúmeras explicações anedóticas para seu perene sofrimento e para sua vida futebolística tão emocionante quanto uma partida de paciência. O fato é que ontem os torcedores corais foram largados à própria sorte pela torcida do Ceará e o time rendeu aquilo que se esperava, ou seja, nada.
Eis, então, que no próximo domingo jogam Fortaleza e Guarany de Sobral decidindo o primeiro turno do campeonato cearense. Os torcedores do Ferrim bem que podiam dar uma força ao Fortaleza, e os do Ceará ao Guarany e sua pequeníssima torcida que certamente virá “em massa” prestigiar seu clube. A casa cheia seria o espetáculo grandioso e apoteótico que a mídia local tanto espera para elevar o moral do pobre e pífio futebol cearense.

Fernando Cavalcanti, 22.02.2010